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A construção de uma nação

Para Lilia Schwarcz, é hora de uma historiografia nacional que não seja extensão da Europa

Marcos Guterman, O Estado de S. Paulo

30 de setembro de 2011 | 19h02

Embora "feita para brasileiros", a coleção História do Brasil Nação se enquadra num projeto de aproximação com os vizinhos latino-americanos, para ter "uma mirada comparativa", como disse ao Sabático a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, diretora do projeto no País. Mas a particularidade brasileira foi enfatizada - a equipe daqui alterou até o título da coleção e introduziu a palavra "Nação", para marcar "a construção do projeto de nacionalidade". Para Lilia, não se pode mais fazer história do Brasil só como extensão da Europa, sobretudo agora, "diante das crises sucessivas nas ex-metrópoles".

O objetivo da coleção, no que diz respeito ao Brasil, parece ser o de produzir uma história do país para consumo dos vizinhos latino-americanos. Por que essa necessidade?

O objetivo é, em primeiro lugar, produzir uma história do Brasil para os brasileiros. Afinal, a coleção sai primeiro em português e só a partir do ano que vem começa a ser traduzida para o espanhol. Além do mais, a despeito de nos enquadrarmos no modelo proposto pela Fundação Mapfre, no que se refere à cronologia dos volumes e ao desenho geral do projeto e dos diferentes capítulos, alteramos o padrão gráfico - e só a coleção brasileira conta com projeto gráfico próprio, de Victor Burton, com imagens internas - e ainda mais mudamos o título da coleção. O nome História do Brasil Nação foi o resultado de um pedido da equipe brasileira que discordou do título original História do Brasil Contemporâneo. A ideia é que esse longo processo leva à construção de um projeto de nacionalidade: um imaginário e uma sensibilidade. Além do mais, no País faz falta uma história desse tipo: contada de maneira clara, direta, sem notas extensas e visando um público amplo. Isso sem esquecer que começamos em 1808, no contexto das guerras napoleônicas, e chegamos a 2010. O panorama é, pois, vasto. Mas você tem razão: um dos grandes objetivos do projeto é criar uma mirada comparativa. Trata-se não só de "mostrar a história do Brasil para países latino-americanos", como o contrário: oferecer história de países como México, Argentina, Chile e Venezuela para os nossos leitores. Impressiona como conhecemos mais acerca da França, da Inglaterra, dos Estados Unidos do que sobre países latinos americanos. A ideia geral é, pois, oferecer instrumentos de comparação quer permitam refletir como a história por vezes nos aproxima e por vezes nos afasta. 

Por outro lado, o objetivo da coleção em relação à América Latina parece ser o de apresentar uma narrativa da inserção do continente na "história contemporânea" mundial. Chegou a hora de contar essa história do ponto de vista latino-americano?

Quer me parecer que sim. Há uma nova realidade global, e os países latino-americanos, em especial, eu diria, o Brasil, têm ganhado nova e inesperada visibilidade. Não parece mais evidente, como de fato o era, que nossa história possa ser descrita como uma extensão daquela outra, contadas pelos países centrais. Pensar em diferentes projetos de modernidade, vários modelos de nacionalidade, formas distintas de sociabilidade parece fazer parte de uma nova agenda, que nos inclui em nova posição estratégica. Modelos alternativos de fazer história e política tem se revelado importantes, sobretudo diante das crises sucessivas experimentadas pelas ex-metrópoles e atuais países centrais.

Que diferencial metodológico essa coleção apresenta? Qual é a diferença entre essa coleção e, por exemplo, a História da América Latina, editada pela Edusp e organizada por Leslie Bethell, que privilegia a economia?

A coleção organizada por Leslie Bethell - diga-se de passagem um dos autores do segundo volume - é até hoje uma referência fundamental. Quer me parecer que os projetos não se excluem, mas se multiplicam, e convivem de maneira tensa e, assim, produtiva. Repito que recebemos um modelo vindo da Fundação Mapfre, espanhola, e que, para ser comparável - pois esse é o grande objetivo do projeto -, precisava apresentar uma concepção comum aos diferentes países. Por isso, todos os volumes são divididos da mesma maneira: um capítulo de economia, outra sobre sociedade, outro sobre cultura, outro mais sobre política, outro sobre relações internacionais. A ideia é apresentar um panorama amplo, que não se limite a uma faceta ou privilegie uma concepção. Além do mais, o coordenador do volume, introduz o volume e o conclui, o que dá a cada livro uma perspectiva muito integrada. Eu também, como diretora da coleção, editei junto com cada coordenador os diferentes volumes, sempre visando a coerência e a unicidade da coleção. Isso, sem apagar a individualidade e o estilo de cada autor.  Por fim, a questão das imagens é fundamental. Não só cada volume é ricamente ilustrado, como o sexto volume, coordenado por Boris Kossoy, mas que tem na equipe Vladimir Sacheta e eu mesma, vai trazer trezentas fotos que vão desde Hercule Florence, até os anos Lula.  

Em sua opinião, qual é a grande dificuldade de escrever a história do Brasil com os olhos voltados para a América Latina? O historiador José Murilo de Carvalho, na conclusão do volume 2 (sobre a segunda metade do século 19), escreve que, se o capítulo "O Brasil no Mundo" fosse dedicado às relações latino-americanas, como propõe a coleção, seria reduzido "a poucas páginas ou à irrelevância", já que o grande elo brasileiro era com os ingleses.

Concordo com o professor José Murilo e essa foi uma orientação geral para a coleção brasileira. O capítulo sobre relações internacionais não se limita às relações com os países latino-americanos. Se impuséssemos tal orientação, os volumes seriam de fato reduzidos e pouco abrangentes. Afinal, nossas relações internacionais se deram, durante largo tempo, sobretudo com Portugal, Espanha, França e, depois, Estados Unidos. Mas a ideia é que a coleção tenha um papel "produtivo" no sentido de animar o diálogo e criar novas formas de pensar e comparar as diferentes experiências latino-americanas.

Como diretora-geral da coleção, tendo provavelmente supervisionado a maioria dos textos e conhecido a maioria dos debates, a senhora conseguiria resumir um traço característico brasileiro em relação à América Latina?

De fato revisei todos os textos. Claro, isso não me faz especialista em cada um deles. Na verdade, contei com uma equipe verdadeiramente impressionante. Se pensarmos apenas nos coordenadores de volumes (Alberto da Costa e Silva, José Murilo de Carvalho, Angela Castro Gomes, Daniel Aarão Reis), já se pode dimensionar o impacto e importância do grupo reunido. Isso sem esquecer dos especialistas selecionados a cada volume. Mas, sim, penso que há traços que se repetem e que tentei mencionar em minha introdução à coleção: a confusa relação entre esferas privadas e públicas; a dificuldade de lidar e assumir as relações violentas que se estabelecem no país; um projeto de modernidade particular e em muitos sentidos frágil, e a busca constante por uma identidade.  Claro que há pontos comuns, mas nossa colonização portuguesa, o fato de sermos o último país a abolir a escravidão no Ocidente e a experiência monárquica longa, popular e enraizada falam de processos particulares a despeito de estarem em constante diálogo com as realidades dos países vizinhos. A comparação é sempre benéfica: permite ampliar perspectivas e, no fundo, duvidar das essencializações mais fáceis e dos provincianismos.

Como a senhora avalia o atual momento das relações entre Brasil e seus vizinhos latino-americanos? Em artigo recente no Estado, o cientista político Marco Aurélio Nogueira disse que "boa parte do sucesso futuro do Brasil dependerá da capacidade que tiver de praticar, com maior vigor, políticas de integração regional que se ponham num patamar mais amplo do que o intercâmbio comercial, ou seja, que aproximem de fato povos, regiões, sociedades e culturas". Isso é possível? 

Mais uma vez digo que não sou especialista no tema e recorro aos professores que escreveram artigos sobre relações internacionais nos diferentes volumes. Por sinal, todos os volumes estão já entregues e apenas aguardando o sequenciamento de edições proposto pela Objetiva, que tem feito um trabalho cuidadoso e coberto de respeito. Mas acho que reside aí um desafio. Durante muito tempo nos miramos na Europa e depois nos Estados Unidos. Quer me parecer que esse diálogo é agora necessário e estratégico.

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