A coragem de aceitar as próprias limitações

Em Como Deixei de Ser Deus, Pedro Maciel trata de amor, morte e tempo

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

24 de outubro de 2009 | 00h00

Pedro Maciel deixou de ser Deus. É difícil. Tem de ser corajoso para chegar a tanto, segundo o escritor mineiro. "Porque todo mundo se acha um Deus", diz. O ser humano não nasce pronto. Ele aprende, se desejar e com bastante esforço, a criar os seus traços humanos. "As pessoas estão esquecendo que são mortais", ele dá um exemplo. "Gostaria que o meu livro ajudasse o leitor a encontrar a sua essência." Maciel encontrou a própria. O resultado dessa experiência árdua e gratificante está em Como Deixei de Ser Deus, o seu novo romance.

Integrante de um conjunto de quatro obras, Como Deixei de Ser Deus (Topbooks, 150 págs., R$ 29) pode ser definido como o Bildungsroman - romance de formação - de um personagem que aceita, com o tempo, as inerentes limitações. Essa aceitação não é óbvia nem fácil, uma vez que, por efeito das desilusões, mesquinharias e dores da vida, os indivíduos tendem a se desumanizar enquanto envelhecem, segundo Maciel, que não revela a idade. Existe um intervalo entre o sonho e a realização. "Sou parecidíssimo com o que sonhei, por isso deixei de ser Deus."

A busca desse ficcionista, desde a sua estreia com A Hora dos Náufragos (Bertrand Brasil), em 2006, é pela originalidade. O primeiro e o segundo romances de Pedro Maciel foram elogiados por autores de peso, e de diferentes estilos, como Ivan Lessa, André Sant"Anna, Antonio Cicero, Moacyr Scliar e Luis Fernando Verissimo, cronista do Caderno 2. O poeta Ferreira Gullar escreveu comentários para o inédito Retornar com Os Pássaros, livro cujo lançamento está previsto para o ano que vem. Com Previsões de Um Cego, Maciel completa uma série de quatro ficções sobre uma delicada trinca de temas - o tempo, a morte e o amor.

"Toda literatura é uma reescritura dos amores, dos tempos e das mortes." Não seria diferente em Como Deixei de Ser Deus, do qual ecoam referências diversas, da filosofia à literatura, e em que ressurgem Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Platão, Heráclito, Samuel Beckett, Leonardo da Vinci, Fiódor Dostoiévski e outros autores. "Este livro também tem a ver com a cabala, a mandala, o Alcorão, a Bíblia e a minha história pessoal."

Por causa do ritmo - característica nuclear da música, da poesia, da prosa e da vida, segundo o autor -, o seu livro "é tão sonoro que pode ser lido de olhos fechados". "Às vezes tenho a sensação de que ele deveria ser ouvido e não lido."

A narrativa do romance é fracionada, composta de fragmentos de aforismos. "Não quero recriar o esquema narrativo criado por outros", diz. "Você pode abrir Como Deixei de Ser Deus em qualquer página, ler um fragmento e fechá-lo." Os fragmentos são formados por frases em negrito e itálico. As passagens negritadas, ele explica, representam a voz de um narrador. As italicizadas podem tanto ser a citação de um pensamento alheio como a fala de um personagem em delírio. Os pequenos textos têm uma numeração, desenvolvida aos saltos: o enredo começa no número 3, em seguida pula para o 7 e vai desse modo até o fim, no número 2.046, que representaria a morte do protagonista, cujo nome não é revelado.

Pedro Maciel afirma ser o seu um romance arraigado na atualidade. Ele compara a estrutura do livro ao "esqueleto de um tubarão". "Eu tirei todo o resto por causa do nosso tempo, tempo do Twitter e seus 140 caracteres, tempo do e-mail, mais breve e rápido que uma carta." Para o escritor mineiro, hoje um romance de 500 páginas é uma redundância.

Ele aposta na inteligência e sensibilidade do leitor. Conta que, depois de enviar os originais de Como Deixei de Ser Deus a um escritor, eles chegaram às mãos do dono de um grande editora brasileira. "Ele disse que o livro é maravilhoso, mas não sabia em que prateleira colocá-lo." A dificuldade de classificação foi o maior elogio que Maciel diz ter recebido. "Às vezes os editores são conservadores, ao contrário dos leitores."

Com imagens de obras do artista plástico Cildo Meireles - Desvio para o Vermelho ilustra a capa -, Como Deixei de Ser Deus deseja comover o leitor, enquanto lhe oferece a possibilidade de entender a consciência dessa comoção. "O que resta além da emoção? A emoção é tudo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.