'A corrupção até ajuda'

Entrevistei Millôr Fernandes em 1.º de dezembro de 2010. Quer dizer, quase. Ao chegar à sua cobertura em Ipanema para uma conversa marcada há semanas para a TV Estadão, ele desconversou. Rindo e brincando como se me conhecesse há anos, disse que tinha mudado de ideia, que não daria mais entrevista, muito menos em frente de câmera. "Você pode ficar aqui e me perguntar o que quiser. Mas sem gravar nem anotar nada." Foi o que fiz. Transcrevi as seguintes linhas, até agora inéditas, logo após deixar o prédio. "Agora volte lá para o seu jornal e escreva sobre o dia em que quase entrevistou o Millôr", despediu-se, gargalhando. Aí está.

Entrevista com

RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

29 Março 2012 | 03h04

O Brasil está melhorando?

Melhorou sim. O problema é que sempre se avalia isso com base numa coisa que ninguém questiona, que é a sociedade de consumo. Aumentar o consumo não é prejudicial quando se fala de uma pessoa que hoje pode comprar carne no supermercado. O problema é quando um menino de 3 anos de idade pede aumento de mesada para comprar um celular.

Tem como acabar com a corrupção no Brasil?

Não. A corrupção é inerente ao homem. O homem sempre foi corrupto, e continuará sendo. Mas a corrupção não impede que as coisas aconteçam.

Ao contrário, até ajuda.

Um governador constrói

uma ponte e ganha por fora.

Se não ganhasse, por que ele iria fazer?

Você não crê no altruísmo?

O altruísmo existe, mas ele dura pouco tempo. Pega um exemplo: o ataque às torres gêmeas de Nova York. No

começo, todo mundo é bonzinho, quer ajudar. Mas 24

horas depois, já entra o

pessoal para saquear o

prédio e poder levar tudo

o que consegue.

Você acha que a tecnologia pode ajudar o País?

Acho. Uma coisa muito interessante é o Twitter. Hoje, não tem como o cara escutar uma crítica e deixar de responder.

O que mudou no brasileiro?

Acho que hoje o brasileiro tem orgulho de falar que é brasileiro. Isso é inédito.

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