A couve que uniu os foodies

Editor da ?Saveur? vem a São Paulo para o evento e acaba cozinhando com pesquisadora que ensinou receita de couve na revista

O Estado de S.Paulo

11 Junho 2009 | 03h20

Cinco meses depois do primeiro contato, lá estava James Oseland arrancando folhas da horta de Neide Rigo e improvisando fanhosamente, em português, um simpático "ahn, sim". Com a receita de sua couve, a pesquisadora e autora do blog Come-se foi uma das personagens da edição especial de janeiro da revista americana Saveur, editada por James, sobre 100 brilhantes cozinheiros do mundo. No coquetel de abertura do evento, reconheceu-a. "I saw Neide!", exclamou, e ela veio contar, estupefata, que ele pediu para conhecer os mercados onde faz compras.

Na manhã do último sábado, Neide apareceu na porta da casa amarela rodeada por sua cadela filhote Dendê. Passeou com James pelo jardim apontando ora-pro-nobis, folha de curry, taioba, manjericão anis. Causou estranhamento o cará-do-ar que ele provaria um dia depois na aula dela sobre os sabores amargos. "Olha o formato disso! Eu fico imaginando por que será que ele é assim, para que?", refletiu. Neide dizia o nome das ervas, citando variedades, e era interrompida por James, que reconhecia alguma e, versado em cozinha asiática, ensinava como é usada na Indonésia ou na Índia. Neide sorria, feliz, James sorria de volta, satisfeito.

Então vamos ao Mercado da Lapa? "E se a gente for de trem?", sugeriu a anfitriã. James adorou a ideia. No percurso da casa de Neide até a estação, contou que gostou do D.O.M e de outros restaurantes de São Paulo. "Mas, sem dúvida, a melhor comida até agora foi caseira". Mais especificamente a comida da sogra, Cleuza, que ele provou na visita a Poços de Caldas.

Corremos para não perder o trem e James começou a preparar a supercâmera para um ensaio fotográfico. "Esse é muito mais legal que o outro", disse, sem ponto e vírgula, assim que botou o pé no Mercado da Lapa, comparando-o com o Mercado Municipal. Lá, foi acolhido pela afável Marli Agostine da barraca de sucos. Pedimos de cupuaçú, cajá e mangaba - fruta que, quando açucarada, virava o doce preferido do escritor João Guimarães Rosa. Ganhamos da Marli doce de abóbora com coco, cocada, quebra-queixo e pavê. "Vamos lá experimentar castanha-de-caju", conduziu a vendedora, fazendo o moço provar da dessalgada, da salgada...

Nos arredores do mercado James, ávido consumidor de pimentas, foi apresentado à arriba saia, coração de galinha e bodinha. "A gente pode almoçar em um restaurante nordestino por aqui ou eu preparo alguma coisa", sugeriu Neide. Não foi uma dúvida cruel. Voltamos à casa amarela e dividimos as tarefas: Neide cuidou do maxixe, do jiló (James nunca viu jiló fresco nos EUA), da mandioca e da canjiquinha. Marcos Nogueira, marido dela, colocou Nana Caymmi para tocar e ficou de olho na frigideira com os lambaris. A repórter fez uma salada com tomates e ora-pro-nobis e James ficou com a meticulosa incumbência de picar, entre outras coisas, as couves! "Você consegue cortar fininho?", disse Neide, em português. "Yes, yes, I can do it". Ela não confiou: "Você tem que dobrar aqui e...". Ele sorriu, garantindo: "Yes, yes, I know". Em seguida observou como ambos são perfeccionistas, e brincou: "Estamos fazendo nosso próprio Paladar - Cozinha do Brasil".

A esta altura, Neide e James já estavam íntimos, como o inglês e o português. "Neide, por que você não acrescenta cúrcuma nessa mistura de farinha de trigo e mandioca que passou no lambari?". Ela atendeu o pedido. "Thanks. A gente aprende também", concluiu, e trouxe à mesa as panelas de jiló e maxixe flamejando, pincelou manteiga na mandioca macia, arranjou espaço para uma jarra de suco de limão rosa. James se encantou por jurubeba. "Neide, ele gostou!", expressou Marcos, incrédulo. Gostou mais ainda da pimenta cumari importada do sítio da família Rigo, que acabou levando de presente. É possível comer muito e sair mais leve? E a limonada refrescando a histeria muda das inesquecíveis refeições. Essas que, em inglês, são definidas por uma palavra que não quer refresco: "Warming".

Entendida e comilona

Neide Rigo fala da nossa couve na edição especial da Saveur sobre 100 ?home cooks? do mundo todo. Tem gente de Trinidad e Tobago e receita de vinagre, frango assado, mostarda, cassoulet...

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