A cratera de Kamil

Ninguém sabe por que Vicenzo de Michele estava sobrevoando o Egito em 2008. Vicenzo, curador do Museu de História Natural de Milão, estava voando baixo, a mil metros do solo, quando observou uma estrutura perfeitamente redonda na fronteira do Egito com o Sudão. Ele anotou as coordenadas e avisou os amigos.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

Assim foi descoberta a cratera de Kamil. A descoberta poderia ter sido feita por você ou mesmo por mim, afinal muitos de nós já sobrevoamos o sul do Egito. Se você ainda não teve a oportunidade de visitar essa área do planeta, não perca a oportunidade de repetir o voo de Vicenzo. Não é preciso alugar um avião, basta abrir o Google Earth.

Isso mesmo, Vicenzo de Michele descobriu a cratera viajando no Google Earth, no conforto do seu escritório. Fiquei com inveja, mas logo me lembrei da frase de Pasteur: "No campo da observação, a sorte favorece as mentes preparadas." ("Dans les champs de l"observation le hasard ne favorise que les esprits préparés"). É duro aceitar, mas aquela bolinha amarela no meio do deserto não teria chamado minha atenção.

Talvez você já tenha se perguntado por que a Lua está coberta de crateras formadas pelo impacto de meteoritos, enquanto aqui na Terra só foram identificadas 15 crateras com menos de 300 metros de diâmetro. Os cientistas acreditam que o número de meteoritos que atinge o solo é semelhante, um a cada dez ou cem anos. Mas, enquanto na Lua as crateras são preservadas, aqui na Terra a presença da atmosfera (ventos e chuvas), dos oceanos e da vegetação destroem as evidências do impacto de um meteorito. Daí a importância da cratera de Kamil. A presença de uma borda definida e raios de material indicavam um impacto recente.

O exame de fotos de satélite não forneceu muitas informações. As imagens mais antigas, de 1972, já mostravam a cratera. Era necessário ir até lá e ver de perto o que ocorreu em fevereiro deste ano, quando, aproveitando o ano de cooperação Itália-Egito, um grupo de aproximadamente 20 cientistas foi até o local. A moleza da pesquisa via Google Earth havia acabado.

A cratera tem 45 metros de diâmetro e possui uma borda que fica 3 metros acima da superfície da rocha sobre a qual se chocou o meteorito. A partir da borda da cratera podem ser observados diversos raios deixados pelo material resultante do impacto. A cratera tem 16 metros de profundidade, mas os 6 metros do fundo estão cobertos por diversos tipos de material, tanto areia quanto restos do meteorito.

Um grupo de sete pessoas passou dias examinando um quadrado de 450 metros de lado, em cujo centro estava a cratera, à procura de fragmentos do meteorito. Foram encontrados 3,6 mil pedaços de rocha, sendo que o maior foi de 83 quilos. Outros 1,5 mil fragmentos foram encontrados em um raio de 1,7 km do centro do impacto.

A partir desses dados foi possível calcular que meteorito deveria ter quase 10 toneladas (o tamanho de uma caixa d''água) quando atingiu o chão, o que sugere que ele tenha entrado na atmosfera com 40 toneladas. Trinta toneladas foram consumidas pelo atrito da atmosfera. Como não foram encontrados fragmentos grandes na redondeza, os cientistas creem que a rocha não tenha se fragmentado antes de atingir o solo.

Analisando o meteorito (basicamente ferro com 20% de níquel) e a vitrificação do solo no local do impacto foi possível calcular que a velocidade de entrada na atmosfera foi de 64,8 mil km/h, sendo que no momento do impacto a velocidade era de 12,6 mil km/h, quase 15 vezes a velocidade de um jato comercial.

Foi possível estimar quando esse impacto ocorreu. Alguns detritos do meteorito foram encontrados sobre restos arqueológicos de povos que habitaram a região. Como se sabe que essas populações abandonaram o local faz 5 mil anos, o mais provável é que o meteorito tenha atingido a Terra nos últimos 5 mil anos.

Essa descoberta demonstra que meteoritos ferrosos da ordem de 10 a 50 toneladas não se fragmentam ao entrar na atmosfera terrestre, o que aumenta muito o número de meteoritos que podem causar estragos dessa magnitude. De qualquer modo, não é necessário se preocupar: com uma frequência de um meteorito a cada dez ou cem anos, dificilmente nossa casa será atingida enquanto navegamos no Google Earth à procura de outras crateras.

BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: THE KAMIL CRATER IN EGYPT. SCIENCE, VOL. 329, PÁG. 804

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