A crise corrói os salários

Ainda não é muito alta a porcentagem das convenções e acordos coletivos firmados por empregados e empregadores que preveem reajustes salariais inferiores à inflação ou a redução da jornada de trabalho com a redução proporcional do salário. De 261 negociações concluídas em janeiro, 50 (ou pouco menos de 20%) resultaram em redução real de salário. Vistos de outro modo, esses números mostram que mais de 80% dos trabalhadores das categorias que concluíram acordos naquele mês conseguiram preservar sua renda ou até obtiveram algum ganho em termos reais. Mas, por trás deles, há um componente perturbador na evolução das negociações salariais: a velocidade com que aumenta o número de acordos que resultam em perda de rendimento real.

O Estado de S.Paulo

07 Março 2016 | 03h02

De acordo com levantamento feito pela Fundação Instituto de Pesquisa Econômica (Fipe) da Universidade de São Paulo, por meio de sua plataforma salarios.org.br – que fornece informações relevantes sobre o mercado de trabalho, incluindo o acesso a convenções e acordos coletivos firmados desde 2007 –, no ano passado, apenas duas das negociações concluídas em janeiro resultaram em redução do salário real.

Em 311 negociações concluídas desde então os trabalhadores tiveram redução de salário real. É um número pequeno se comparado ao total de cerca de 20 mil acordos coletivos assinados no período. Mas, como observou o coordenador do projeto de pesquisas salariais da Fipe, Hélio Zylberstajn, o crescimento observado em 12 meses mostra que há uma tendência de alta do número de acordos com essas características. Mais ainda, o coordenador ressalta que, antes limitada à indústria metalúrgica, essa tendência se estende para outros segmentos industriais e já alcança o setor de serviços.

Trata-se de uma notável mudança em relação ao que se observou nos últimos dez anos, quando a quase totalidade dos acordos fechados entre empregados e empregadores previu aumentos reais de salários. A crise demorou para alcançar o mercado de trabalho, mas, quando o fez, teve – e está tendo – impactos muito fortes.

A criação de postos de trabalho no mercado formal vinha sendo alardeada pelo governo do PT como uma de suas principais realizações na área social. De fato, o emprego com carteira assinada oferece, em geral, remuneração melhor do que a paga no mercado informal e assegura direitos e garantias com que não contam os trabalhadores sem registro. Por isso, o aumento do número de pessoas empregadas com carteira assinada, e a consequente redução do emprego informal, representou uma melhora qualitativa e quantitativa do mercado de trabalho.

Mas a crise em que o próprio governo petista lançou o País vem destruindo tudo o que de benéfico se construiu no período em que, impulsionado pelas condições internacionais excepcionalmente favoráveis e a despeito da irresponsabilidade populista da administração do PT, a economia brasileira cresceu, gerando empregos de qualidade e assegurando remuneração crescente aos brasileiros.

Ao longo do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, porém, vinha se reduzindo o número de vagas criadas no mercado formal, até se chegar ao desastre do ano passado, quando, como mostram as estatísticas oficiais, foi fechado nada menos do que 1,542 milhão de postos de trabalho com carteira assinada.

Mas a crise não poupou nem mesmo os que conseguiram escapar dos cortes promovidos pelas empresas como forma de sobreviver às dificuldades crescentes. No ano passado, o rendimento real dos trabalhadores teve a primeira queda desde 2004. Inflação em alta e economia em forte desaceleração (o Produto Interno Bruto encolheu 3,8%, segundo o IBGE) são as causas para a queda de 3,7% da renda real média do trabalhador detectada pela Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE.

Nem mesmo categorias organizadas e com forte poder para negociar com os empregadores estão conseguindo obter ganhos salariais.

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