A crise russo-turca: globalização da guerra civil na Síria?

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

Karabekir Akkoyunlu*, O Estado de S. Paulo

27 Novembro 2015 | 22h00

A derrubada do caça russo pelas Forças Armadas turcas na fronteira da Turquia com a Síria, em 24 de novembro, passará para a história como o 'momento Franz Ferdinand' do nosso século? O fato desencadearia novos eventos que culminariam no próximo grande confronto entre grandes potências? A resposta breve e responsável é não: apesar da gravidade da crise (esta é a primeira vez que um membro da OTAN abate um avião de guerra russo em mais de cinquenta anos), nenhum dos atores envolvidos tem interesse numa escalada de tensões militares.

Mas a tensão também não vai simplesmente desaparecer. O presidente russo Vladimir Putin já intensificou a guerra política, qualificando o governo turco de 'cúmplice de terroristas', acusando-o de apoiar os grupos jihadistas na Síria, de comprar petróleo do Estado Islâmico e de impelir a Turquia na direção de um islamismo radical.

Moscou também anunciou uma interrupção da cooperação militar com Ancara, alertou seus cidadãos a se manterem afastados da Turquia - milhões de russos visitam a costa mediterrânea do país anualmente -, ameaçou adotar medidas contra empresas turcas com negócios na Rússia, deu a entender que suspenderá projetos conjuntos nas áreas de energia e infraestrutura, e chegou até a apresentar ao Parlamento um projeto de lei que criminalizaria a rejeição do genocídio de armênios pelo Império Otomano em 1915, acusação que a Turquia oficialmente rejeita.

Por uma semana, notícias de atrocidades russas contra a comunidade turcomana no norte da Síria, que tem vínculos históricos e étnicos com a Turquia, dominaram a mídia pró-governo e suscitaram sentimentos nacionalistas na Turquia. (Moscou alega que seu alvo são jihadistas que trabalham com a frente al-Nusra, afiliada a Al-Qaeda, ao passo que Ancara sustenta que são civis que se defendem contra o regime sírio). 

Por mais custosa que suas ações possam se revelar, ao enfrentar Putin, Erdogan vem sendo ainda mais cultuado pelos seus partidários nacionalistas religiosos. Parte disso pode ser meramente exibicionismo. Mas o que complica os esforços para conter os danos às relações bilaterais, que vinham prosperando nos últimos anos, é o orgulho excessivo dos líderes russos e turcos. Dois 'machos' com egos descomunais, Erdogan e Putin consideram-se herdeiros dos defuntos impérios russo e otomano, com uma missão de restaurar a glória imperial passada dos seus países.

Ao longo de suas histórias, esses impérios viveram períodos de paz interrompidos por guerras frequentes. Entre o século 18 e início do século 20, campanhas caras e mal sucedidas de defesa contra a Rússia esgotaram os recursos otomanos e precipitaram sua queda. A única grande vitória turca contra a Rússia foi na Guerra da Crimeia de 1853 a 1856, quando Grã-Bretanha e França formaram uma aliança com os otomanos para conter a expansão russa sob o governo do Czar Nicolau I.

De modo similar, Erdogan recorreu aos aliados ocidentais da Turquia após o jato russo ter sido alvejado na terça-feira. Mas apesar das declarações oficiais de solidariedade, os países da OTAN estão divididos. Embora em Washington e Londres algumas pessoas possam ter sorrido discretamente ao ver Putin finalmente sofrer uma derrota, ninguém deseja que a guerra na Síria provoque o que a Guerra Fria não alcançou: ou seja, desencadear um conflito direto entre a OTAN e a Rússia. Por outro lado, a confiança no governo islamista turco e a paciência com seus dirigentes vem diminuindo no Ocidente, especialmente após os atentados em Paris.

Enquanto isso, a Rússia está intensificando sua campanha militar na Síria, sem mostrar qualquer sinal de que se mostrará mais sensível que antes em relação aos interesses da Turquia. Putin provavelmente despejará sua cólera contra os turcomanos; e poderá até dar uma mão para os curdos, que estão envolvidos em um conflito de mais de três décadas contra o Estado turco, enquanto também buscam estabelecer uma administração autônoma no norte da Síria e lutam contra o Estado Islâmico, com apoio dos Estados Unidos. Até que ponto Erdogan ousará desafiar Putin e quais medidas os Estados Unidos adotarão, permanece um enigma.

Todos estas mudanças e mistérios constituem um mau presságio para o futuro do que é o mais violento e contagioso conflito no mundo no momento, que atingiu um novo patamar de complexidade com a crise entre Rússia e Turquia. O 'velho mundo' ainda está longe de uma conflagração como aquela que o tragou completamente há um século, mas a direção para a qual caminha também está longe de ser tranquilizadora.

* Karabekir Akkoyunlu é professor assistente de Turquia Moderna do Centro de Estudos do Sudeste Europeu, Universidade de Graz, na Áustria. Contato: karabekir.akkoyunlu@uni-graz.at Twitter @ulu_manitu

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