A cultura singular da Liberdade

Documentário de diretores estreantes mostra como o Oriente se transforma no bairro

Felipe Lavignatti,

06 de outubro de 2007 | 13h48

O bairro da Liberdade tem uma ligação muito forte com o cinema. Nos anos 50, foi inaugurado o Cine Niterói, durante muito tempo o único lugar da cidade onde eram exibidos filmes japoneses. Com o sucesso, surgiram outras salas com a mesma proposta. A opção de lazer paulistana atraía japoneses de toda São Paulo - e até de outras cidades - que tinham a oportunidade de viver um pouco da cultura que fora deixada para trás. Hoje, estes cinemas direcionados não existem mais, mas o fascínio pela Liberdade ainda atrai muitos descendente japoneses.  - Veja trechos do documentário 'Liberdade', de Maurício Osaki e Mirian Ou Maurício Osaki é um desses casos de paixão pelo bairro. A ligação não poderia ser maior: além da ascendência japonesa, Osaki tem o cinema como profissão. E foi justamente o bairro que inspirou e batizou  seu primeiro trabalho profissional.  Em 2006, recém formado em Cinema e Vídeo pela USP, o jovem cineasta convidou Miriam Ou, amiga de faculdade e descendente de chineses, para retratar a origem da cultura oriental na cidade por meio do documentário "Liberdade", primeiro filme do projeto História dos Bairros, das Secretarias de Cultura e Educação de SP. A Liberdade era só um ponto turístico da cidade para Osaki, que freqüentava suas feirinhas e restaurantes. A ligação só iria se estabelecer ao longo das filmagens. Além da curiosidade que o bairro despertava como atração turística, Osaki esperava encontrar suas raízes. E não havia lugar melhor para a busca do que o reduto oriental de São Paulo. Durante as filmagens, o jovem diretor descobriu que a ligação de sua família não estava tão distante. Seu pai revelou durante a produção que havia morado no bairro durante a infância.  A ligação com a sétima arte viria na seqüência. O documentário mostra como o surgimento de cinemas na região ajudou a moldar o caráter turístico do bairro, além de ser o elo com a terra dos pais, já que os filmes orientais que passavam ali eram exibidos em sua língua original.  Grande parte dos moradores do bairro entrevistados em "Liberdade"? não falam português. Segundo Osaki, "a idéia era que eles se sentissem mais à vontade diante da câmeras e que não soasse caricatural. Em alguns casos, o português travava. Na língua original fluía melhor." No começo de suas pesquisa, o moradores foram arredios. Foram necessários seis meses de visitas para que houvesse confiança total no trabalho dos jovens cineastas. Em um ano de pesquisas e entrevistas com os novos e antigos moradores do bairro, Osaki começava a traçar a história de um bairro único em São Paulo. Que não é somente um bairro japonês, é um ponto de referência da cultura oriental na cidade. Uma cultura que não encontra paralelo do outro lado do mundo. "Isso foi o que mais nos supreendeu", diz o cineasta. "A cultura desenvolvida no bairro tem muito de brasileira, mais do que eu imaginava. É a idéia brasileira do que é o oriental." Japoneses, chineses, coreanos. Todos personagens que ajudam a dar uma cara única ao bairro, que fica irreconhecível até mesmo para quem vem do Oriente. A Liberdade não pertence a um povo em específico, já se tornou algo brasileiro. Se hoje já não existe mais o Cine Niterói, existem outros atrativos para quem quer conhecer a cultura do Oriente. Mas uma cultura que mistura as tradições orientais e brasileiras. "A Liberdade tem uma cultura japonesa que não existe no Japão. Lá não existe rodízio de sushi. Isso é invenção nossa"?, diz o diretor, atestando o que o seu filme mostra: que a Liberdade não é só Oriente, é também Brasil. Primeiro filme do projeto História dos Bairros, das Secretarias de Cultura e Educação de São Paulo, Liberdade foi distribuído para as escolas municipais. E, em breve, será exibido no canal Futura.

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