A curiosa interpretação dos dados do Banco Central

A divulgação do Índice de Atividade Econômica, elaborado pelo Banco Central, levou à conclusão de que havia sinais de desaceleração da economia e, portanto, podia-se prever menor alta do juro.

16 de julho de 2010 | 03h45

 

 

Convém dizer, em primeiro lugar, que não houve queda no índice do Banco Central em maio, mas apenas uma estabilização. Quando se consideram os dados dessazonalizados (139,55), ele está exatamente no mesmo nível do mês anterior, que foi o mais elevado do ano.

 

 

Estabilização num nível elevado não significa desaceleração, mas apenas interrupção do curso de alta, que já se considerava exagerado, na medida em que podia desencadear um processo inflacionário.

 

 

Há que se acrescentar, também, que não se avalia uma tendência a partir do resultado de um mês. Aliás, é provável que o resultado de junho seja pior que o de maio, levando em conta as perturbações que a Copa na África do Sul criou nos horários de trabalho. O normal é examinar a tendência na média de três meses.

 

 

Parece-nos muito importante levar em conta o peso de cada um dos setores para medir o rumo da atividade. Ora, nestes últimos meses estamos assistindo a uma profunda mudança na vida econômica com o programa da construção civil: é normal que uma família que se endivida com a compra de uma casa procure reduzir outras despesas para honrar seus compromissos em relação ao crédito imobiliário. Isso não significa que a atividade global tenha sofrido uma retração.

 

 

 

Sem levar em conta que uma redução do ritmo de crescimento é desejável, e que as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) tinham esse objetivo, podemos imaginar que, no momento em que o governo e o Congresso optam por uma política de bondade neste clima eleitoral, as empresas estejam tentando também se beneficiar, através de um lobby que procura intimidar o Copom na véspera da sua reunião (20-21 de julho), para que renuncie à sua política ortodoxa.

 

 

A independência do Banco Central representa uma necessidade absoluta, ainda mais neste período, em que a sua política não pode ser ditada por objetivos eleitorais no fim de mandato do governo. Cabe às autoridades monetárias avaliar se a redução das pressões inflacionárias neste último mês justifica ou não uma mudança na sua política monetária. O Copom tem o dever de tomar suas decisões, não apenas em razão do resultado de um mês e, especialmente, levando em conta as novas despesas criadas nas últimas semanas.

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