A de barro é que faz moqueca boa

Restam, em todo o País, pouco mais de cem paneleiras que se dedicam regularmente ao ofício

Nana Tucci - Especial para o Estado,

29 Setembro 2011 | 19h31

A moqueca, maior representante da cozinha capixaba, corre o risco de desaparecer em poucas décadas. Não vai faltar badejo, tomate, coentro ou tintura de urucum. Mas um “ingrediente” imprescindível ao preparo do prato emblemático do Espírito Santo está ameaçado de extinção: a panela de barro. O motivo? 

Restam, em todo o País, pouco mais de cem paneleiras que se dedicam regularmente ao ofício. A cada ano esse número cai, pois mais mulheres abandonam a profissão, que há quatro séculos tem sido passada de mãe para filha. É um trabalho exaustivo e mal remunerado. O Paladar foi até Vitória acompanhar todas as etapas do processo de confecção da panela de barro.

A receita mais importante da moqueca capixaba não é a do prato, mas a da panela de barro em que é preparada e servida. Inconfundível pela cor preta e formato, de fundo raso e borda baixa, é feita manualmente, sem forno nem torno. 

É a panela que faz a moqueca chegar à mesa fumegante e assim permanecer por muitos minutos. É a panela que faz o cheiro inclemente escapar das casas e incitar os vizinhos e passantes.

Sua produção envolve pouco mais de 100 mulheres que vivem em um bairro com nome de poema de Cora Coralina: Goiabeiras, na zona Norte de Vitória. 

O ofício das paneleiras de Goiabeiras foi o primeiro a ser reconhecido como bem imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2002. Reconhecimento importante para estas mulheres reunidas desde 1987 na Associação das Paneleiras de Goiabeiras (tel. 27/3327-0519).

Berenices, Valdineas, Cecílias e Grazieles mantêm uma tradição indígena que nem sabem ao certo quando começou. Arriscam dizer que foi há 400 anos. O Iphan assume apenas que a técnica é um legado cultural das tribos tupi-guarani e una. 

“A gente não tinha escolha. Aos 7, 10 anos era dever ajudar a mãe e, quando via, já tava fazendo também”, conta Valdinea Lucidato. Apesar de achar o trabalho estafante e ter abandonado “o fogo” (leia à esquerda), Valdinea diz que “quando começa a mexer com o barro, sua energia é renovada”.

Uma panela de qualidade demora três dias para ficar pronta, da modelagem à tintura, passando pela queima na fogueira. Cada paneleira faz cerca de 15 peças por dia e as revende em barraca própria, no galpão da associação - a disputa pelo cliente é acirrada. O barro, mais arenoso que o comum, é recolhido por Ronaldo Alves e seus ajudantes no “barreiro” do Vale do Mulembá, uma área de proteção ambiental a 3 km dali. A tinta da casca do mangue-vermelho, que dá a cor preta à panela, é trazida por Carlos dos Santos do manguezal de Vitória - ele viaja cerca de 1 hora, de canoa, e se embrenha no mangue com um macete.

Na época em que o ofício passou a ser um patrimônio cultural, um “pacote de salvaguarda” foi criado, para garantir sua continuidade, mas não saiu do papel. À exceção do novo e bem equipado galpão para onde as paneleiras se mudarão em novembro, nada relevante foi feito em quase uma década. Sem auxílio do governo, trabalham 10 horas por dia, seis dias por semana, ganhando, em média, um salário mínimo para abastecer o Brasil com suas panelas de barro (R$ 8 a R$ 100). Resultado: as jovens não querem seguir os passos de suas mães e avós, o que faz as próprias paneleiras chegarem à conclusão de que, em duas ou três décadas, o primeiro ofício reconhecido como bem imaterial do País vai desaparecer. 

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