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Dias Lopes
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A dieta mediterrânea de Cleópatra VII

Uma das linhas de cozinha muito difundidas na atualidade, inclusive no Brasil, é a mediterrânea. Os restaurantes que a praticam atraem uma clientela que vai de gastrônomos requintados a pessoas interessadas em comer bem, mas que colocam o interesse pela vida saudável acima do prazer à mesa. O fascínio sobre essa freguesia diversificada se espalhou na década de 50, quando a Fundação Rockfeller, de Nova York, divulgou um estudo epidemiológico feito na ilha grega de Creta e em sete países vizinhos. No relatório, os pesquisadores associaram a longevidade das populações ao redor do Mediterrâneo e suas reduzidas taxas de morte por doenças coronarianas à dieta equilibrada que seguiam no dia a dia. Elas consumiam frutas frescas ou em passa, legumes e hortaliças do quintal doméstico, como alho, alho-poró, cebola, pepino e tomate; apreciavam feijão, batata, milho, azeitonas, trigo, aveia, centeio, cevada, laticínios, castanhas, amêndoas, nozes e mel; não abusavam do açúcar e sal, nem das carnes ovina, caprina, bovina ou de caça, restritas aos domingos e dias de festa; substituíam muitas vezes as gorduras de origem animal pelo óleo de oliva; ingeriam poucos ovos por semana; privilegiavam os assados, grelhados e cozidos, em detrimento das frituras e bebiam equilibradamente vinho às refeições. A imprensa espalhou a notícia, chamando essa dieta ou cozinha de mediterrânea e a considerando prova da relação entre expectativa de vida e hábitos alimentares. Hoje, porém, ela já não é observada com o mesmo rigor. Na década de 50, os povos do Mediterrâneo ainda continuavam com os bolsos esvaziados pela 2ª Guerra e não podiam se entregar aos luxos gastronômicos. Entretanto, com o desenvolvimento econômico, passaram não só a dispor de maior abundância de ingredientes e a processá-los cada vez mais industrialmente, como sofreram influências internacionais, sobretudo dos hábitos norte-americanos. Conclusão: mudaram um pouco a forma de comer. Agora, uma novidade é o estudo da provável origem daquela dieta ou cozinha. Embora ao ser identificada pela Fundação Rockfeller ela incluísse alimentos assimilados após a descoberta da América, no final do século 15, como o tomate, a batata e o milho, certos historiadores gastronômicos acreditam que seus precursores foram os egípcios do tempo dos faraós. Arriscam até que se modelou na dinastia ptolomaica, que reinou a partir de 305 a. C., da qual Cleópatra VII (69-30 a. C.) foi estrela de primeira grandeza. As provas se encontrariam em papiros desenterrados nas últimas décadas em ruínas arqueológicas do oásis El-Fayum, ao sul do delta do Rio Nilo, ainda hoje uma próspera região agrícola, e nos comentários de autores do primeiro século do cristianismo, sobretudo do naturalista latino Plínio, o Velho (23-79 a. C.). Por sinal, em um dos 37 livros de sua História Natural ele descreve o espetacular banquete de sedução oferecido por Cleópatra ao militar e político romano Marco Antônio. Apesar dos excessos gastronômicos comuns nos festins solenes de antigamente, dos assados e ensopados brutais, os pratos de base eram mediterrâneos. Não se conseguiu reconstituir totalmente o cardápio. Entretanto, sabe-se que as receitas usavam óleo de oliva, azeitonas, frutas, verduras, ervas aromáticas, cereais e queijos brancos. Em toda refeição egípcia era oferecida pelo menos uma sopa de fava (predileção nacional), cevada ou farro (planta herbácea assemelhada ao trigo). No banquete para Marco Antônio, os convidados saborearam várias. Também foram apresentados pombos recheados, acompanhados das verduras da estação, e peixes, apesar de leis religiosas vetarem o consumo de alguns deles pelo faraó e hierarquia sacerdotal. Como mostra o antropólogo francês Pierre Tallet, no livro História da Cozinha Faraônica - a Alimentação no Egito Antigo (Editora Senac, São Paulo, 2005), procediam especialmente do Nilo e exerciam papel importante na dieta da população. Conservados em salmoura ou desidratados ao sol, eram assados ou cozidos. O banquete para Marco Antônio foi um dos mais caros já servidos no mundo, pois teria custado em sestércios, a moeda da época, quase US$ 2 milhões. A rainha do Egito apostara com seu homenageado que gastaria a importância estratosférica na comilança. Julgando isso impossível, Marco Antônio aceitou o desafio. Quando o banquete chegava ao fim, ele fez as contas e interpelou Cleópatra. Disse-lhe que achara a comida rica e deliciosa, mas o preço não havia sido tão alto. A rainha respondeu ter servido "apenas as entradas". E, arrancando de uma orelha o enorme brinco de pérola - Plínio, o Velho, garantiu que só existiam duas tão valiosas no mundo, ambas em poder de Cleópatra -, lançou-o numa taça com vinagre de vinho. Enquanto a acidez do líquido dissolvia o nácar da pérola, composto principalmente de carbonato de cálcio, a rainha o bebeu solenemente. Ia fazer o mesmo com o outro brinco. Mas, reconhecendo a derrota, o homenageado segurou-lhe a mão. Cleópatra ganhou a aposta e o coração do romano, com quem acabaria casando. O banquete para Marco Antônio, além de ser referência da dieta ou cozinha mediterrânea, também passou à história como símbolo do esbanjamento desvairado.

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