A direita, o papagaio e o facão

Uma aura folclórica, translúcida e radioativa, faz reluzir esse novo histrionismo de intolerância direitista que, de 10 ou 15 anos para cá, vem ganhando cargos políticos e espaço jornalístico no Brasil e no resto do mundo. Uma aura folclórica, é bom repetir. Esse discurso que mescla receitas anacrônicas de ultraliberalismo econômico e uma sanha persecutória contra os movimentos sociais em geral - uma repulsa ao Estado, quando o assunto é mercado, e uma ojeriza à diversidade, quando o assunto é sociedade civil - costuma vir embalado por arrogância bruta, dita politicamente incorreta, que, no mais das vezes, não se pode levar a sério. Jair Bolsonaro é um exemplo, mas há outros. Falam tanta barbaridade, tanto desaforo, que a gente dá de ombros. Melhor deixá-los onde estão. Cumprem lá o seu papel.

Eugênio Bucci,

02 Junho 2011 | 03h18

O novo histrionismo tem lá a sua representatividade. Ele externa ideias que a grande maioria dos mortais teria vergonha de pronunciar. Desbocado, fala em nome de padrões morais menos flexíveis, xingando os gays e abominando os militantes das causas ambientais, como se todos fossem comunistas escondidos em ONGs vendidas ao capital internacional. É um discurso absurdo? É, mas todos reconhecemos o seu direito de existir. Que as atrocidades sejam ditas em sua crua explicitude - se não fica mais elegante, pelo menos o debate fica mais franco. Assim, barulhenta como um papagaio doido, essa voz primitiva conquistou seu lugar ao sol. Como folclore.

Falando em folclore, temos aqui um dado pitoresco. Essa voz não pode ser confundida com a direita em sentido clássico. Ela não representa a defesa da livre-iniciativa ou da concorrência no mercado. Ela mal sabe o que são trustes, marcos regulatórios e fluxo de capitais. Confunde vícios privados com ética pública. Ela é de direita como caricatura, pelo conservadorismo nos costumes, por não suportar conviver com a diferença, pelo asco que emula contra tudo o que cheire a esquerda. Essa direita, enfim, é uma direita comportamental e obtusa; é mais uma seita fundamentalista, ainda que fragmentada, e menos uma corrente de pensamento.

Em parte, como já foi dito, ela cresce graças à corrupção que corroeu a esquerda, em vários países, gerando incompetência administrativa e frustração nos diversos eleitorados. Essa explicação, contudo, é insuficiente. É verdade que, além do esmero em se apropriar do alheio para abarrotar cofres pessoais ou partidários, setores expressivos da esquerda demonstraram notável talento para fazer desandar a máquina pública, mas isso, apenas isso, não explica o crescimento dos discursos prepotentes à direita. É preciso levar em conta, ainda, um fator que parece galvanizar os descontentamentos. O nome desse fator é moralismo.

Para que tenhamos uma ideia menos vaga do que é o moralismo político hoje, vejamos o que se passa na França. Marine Le Pen, candidata da extrema-direita às eleições presidenciais do ano que vem, prega abertamente o retrocesso. Ela fala contra os estrangeiros (xenofobia), contra a unificação europeia e contra os políticos. Para ela, a prisão de Dominique Strauss-Kahn - então diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), num hotel de luxo em Nova York, acusado de agredir sexualmente uma camareira - não é outra coisa senão um sintoma da imoralidade em que naufragou a elite política francesa.

Não há razão nesse discurso, é evidente. O fato de ser acusado de um crime sexual não transforma Strauss-Kahn no representante de uma elite estupradora (a propósito, Marine Le Pen também integra a elite política francesa). Mas o moralismo é assim: elege traços comportamentais como pilares da ética pública e solta seus cachorros na rua. Como não estamos no campo da lógica, o eleitorado vem gostando dos comícios de Marine Le Pen. À vontade, ela catalisa a fúria contra o diálogo: a fúria contra os estrangeiros, os outros políticos e os demais países europeus. No caso dela, a direita não é folclore: é facão.

E no Brasil? Bem, por aqui estamos às voltas com políticos ditos de esquerda que faltaram com a decência pública. Que sejam julgados e punidos. A conduta pessoal de cada um deles, entretanto, não quer dizer que todo o governo (de Lula ou de Dilma) seja uma desbragada bandalheira. Não é. Da mesma forma, não foram pura maldição os dois governos de Fernando Henrique Cardoso, por mais discutíveis que tenham sido os métodos pelos quais ele abriu atalho para o segundo mandato. Houve acertos na gestão de FHC, assim como houve acertos na gestão de Lula. A nossa única esperança está em separar, sem extremismos, os acertos dos erros - e fortalecer os primeiros e corrigir os segundos. Claro, segundo as regras da democracia.

A hora é delicada. No Congresso Nacional há um embrutecimento da perseguição religiosa contra homossexuais. No campo, líderes ambientalistas (todos ligados a movimentos de esquerda, registremos) são assassinados sem que os criminosos sejam sequer localizados. Em todo lugar despontam manifestações de impaciência e de recusa peremptória do argumento adversário, seja quando se fala de um livro de Português adotado em escolas públicas, seja quando se vota o novo Código Florestal. Há até mesmo gente afirmando que a ditadura militar não foi tão mal assim.

Sejamos serenos. A polarização não nos vai levar a bom termo. Ela é incapaz de promover a superação dos impasses que se apresentam. Ao contrário, vai somente fomentar o repúdio à política, às instituições e aos mecanismos democráticos, que são lentos e tortuosos, mas são os únicos eficazes.

Existe intolerância de esquerda? Claro que sim. Eu mesmo a apontei muitas vezes, neste mesmo espaço. Agora, porém, olhemos para esse facão que se insinua à direita. Ele é tão grave quanto. E fica aí, posando de folclore.

 

 

JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP E DA ESPM

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