Imagem Dias Lopes
Colunista
Dias Lopes
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A divina rainha inglesa da cozinha

Morena, bonita, apesar dos quadris rechonchudos, a inglesa Rosa Ovenden (1867-1952) tinha 16 anos quando começou a trabalhar como copeira na casa do conde de Paris, Luís Felipe Alberto de Orleans, exilado na Inglaterra. Ainda não usava o sobrenome Lewis, adquirido com o casamento, e era tão eficiente que logo passou a ter a responsabilidade de lavar as valiosas porcelanas de família do pretendente ao trono da França. Aos 20anos, depois de aprender boas maneiras, dominar o francês, língua dos patrões, e estudar arte culinária, foi promovida a cozinheira. Não se sabe exatamente como ela conheceu o então príncipe de Gales, futuro Eduardo VII, rei da Grã-Bretanha e da Irlanda e imperador da Índia, de quem teria sido amante em 1890. As versões são conflitantes. A mais aceita conta que o príncipe de Gales chegou antes dos demais convidados para um banquete na casa do conde de Paris. Ao entrar na sala de refeições, Rosa estava sozinha dando os últimos retoques na mesa. Confundindo-a com uma amiga, aplicou-lhe um beijo. A copeira e depois cozinheira fazia sucesso com os homens e tirava proveito disso. Mas subiu na vida combinando o poder de sedução com o talento culinário. Era tão boa cozinheira que mereceu de um seu contemporâneo, o genial Auguste Escoffier (1846-1935), responsável pela sistematização da culinária francesa, o título de "rainha dos cozinheiros". No relacionamento com o príncipe de Gales, a habilidade de Rosa no forno e fogão foi ingrediente importante. O futuro rei Eduardo VII, que ascendeu ao trono britânico apenas em 1901, com quase 60 anos, apreciava as boas coisas da vida. Enquanto não foi coroado, passou temporadas em Paris, comendo nos grandes restaurantes - Maxim’s, Paillard, Voisin e Café Hardy, que o homenagearam com pratos especiais - e colecionando belas mulheres. A enciclopédia Larousse Gastronomique (Larousse-Bordas, Paris, 1996) dedica-lhe um verbete. Refere-se ao turbot (rodovalho) à príncipe de gales, à barbue (peixe da família do linguado); e ao frango e aos ovos à Eduardo VII. Na vida sentimental, envolveu-se com a americana Jennie Jerome, mãe do futuro primeiro-ministro Winston Churchill; a atriz dramática parisiense Sarah Bernhardt; a britânica Alice Keppel, bisavó de Camilla Parker Bowles, segunda mulher do príncipe Charles, atual príncipe de Gales e herdeiro do trono britânico; e a cortesã espanhola La Belle Otéro, que ele encontrava no Maxim’s. Quanto a Rosa, passou a trabalhar como autônoma após o reconhecimento do seu talento culinário, tornando-se banqueteira. A partir de 1887, preparou refeições em residências suntuosas de Londres e arredores. O italiano Rinaldo Casana, no livro La Tavola dei Re (Rosellina Archinto, Milão, 1999), afirma que a primeira dama a chamá-la para cozinhar foi lady Murray Guthrie. Seguiu-se lady Randolph Churchill, ex-Jennie Jerome. "Refeições urbanas e festas rurais, bailes, caçadas, breakfasts colossais e ceias íntimas da melhor aristocracia londrina dependiam da sua disponibilidade (...)". Além de assegurar boa comida nas recepções, a contratação da ex-empregada dos condes de Paris tinha uma vantagem: o príncipe de Gales sempre se dispunha a aparecer quando Rosa cozinhava. O futuro Eduardo VII apreciava suas receitas: musses de salmão defumado ou lagosta; crepes de vários tipos; suflê de frango; terrine de fígado e cogumelos; lagosta ao molho de manteiga; presunto em gelatina ou cozido com molho de cumberland. Em 1893, Rosa surpreendeu os amigos ao casar com o mordomo Chiney Lewis e adotar o sobrenome dele. Mas a união durou pouco. O marido era muito ciumento e bebia demais. As bodas teriam ocorrido por pressão da família modesta da noiva - o pai foi primeiro relojoeiro e depois agente funerário. Rosa causou novo impacto em 1902 ao comprar o Cavendish Hotel, na Jermyn Street, uma das ruas mais elegantes de Londres. O estabelecimento ainda existe e hoje ostenta quatro estrelas. Além de reformá-lo e redecorá-lo luxuosamente, dotou-o de um restaurante que logo alcançou alta reputação. Suspeita-se que Eduardo VII, coroado um ano antes, ajudou-a a comprar o Cavendish Hotel. Rosa jamais negou os mexericos mas também não os confirmou. "Fiel à disciplina da discrição, ela não só guardou rigorosamente os mil segredos que conhecia como não deixou transparecer a própria vida sentimental", disse o italiano Casana. Durante a 1ª Guerra Mundial, acolheu gratuitamente no Cavendish Hotel algumas famílias de oficiais empobrecidas pelo conflito. A "rainha dos cozinheiros" morreu em Londres, em 1952, e a multidão que compareceu ao seu sepultamento interditou as ruas do centro da cidade. Uma jornalista americana que entrevistara Rosa chamou-a de "divina cozinheira" e disse ter sido a pessoa mais corajosa que conheceu.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.