A ‘dor’ pela escolha alheia

A ‘dor’ pela escolha alheia

Sempre ouvi dizer que um dos principais desafios do pesquisador de campo é não interferir - ou alterar o mínimo possível - o objeto de seu estudo. Só não imaginava que, quando o tema fosse cerveja, isso se tornasse tão difícil. Toda vez que vou ao supermercado, empórios e bares onde as fermentadas são vendidas para viagem, é inevitável prestar atenção ao que as pessoas compram, em que quantidades e, principalmente, por que fazem suas escolhas. É mais forte do que eu.

Roberto Fonseca,

14 Março 2012 | 20h10

Algumas decidem suas cervejas em segundos. Outras olham, pegam a garrafa, leem o contrarrótulo, a colocam de volta. Dão alguns passos, olham outras marcas, voltam àquela primeira e a pegam de novo. E repetem esse ritual algumas vezes. Por mais que em certos casos demore menos de dois minutos, chega a ser exasperante, ainda mais quando a pessoa pega uma cerveja de qualidade, a coloca de volta e, na sequência, volta àquela marca “de sempre”, titubeante, leva algumas para o carrinho e vai embora. Mentalmente, acerto a mão espalmada na testa, em sinal de desconsolo. Mas não interfiro. Pelo bem da ciência.

Depois de anos de observação, vi que há, também, o “amigo da onça” cervejeiro. Outro dia mesmo estava na seção de cervejas de um mercado, observando uma senhora que havia apanhado uma cerveja escura de boa qualidade, inglesa. Mas ela vacilou por instantes, e logo chegou um senhor, com sorriso no rosto e algumas latas de cerveja industrial escura e qualidade duvidosa. “Estas aqui são ótimas. Eu, se fosse você, levava várias.” Não sei qual a relação da dupla, mas a senhora aceitou a “dica” e saiu com mais do mesmo. Sim, vivemos num país democrático e cada um bebe o que quer, mas tive vontade de chacoalhar todas as latinhas e depois abri-las na frente do sujeito. Tolher uma nova experiência cervejeira deveria ser crime hediondo.

Há, claro, casos em que as pessoas se arriscam e levam boas cervejas. Impossível conter o sorriso na fila do caixa quando o fardão de lagers industrializadas dá lugar a garrafas diferentes. Sinto vontade de parabenizar a pessoa e apertar sua mão, quem sabe até dar um abraço, dependendo da cerveja - mas a possibilidade de ser confundido com um lunático inibe essa alegria dos cervejeiros.

Em apenas uma ocasião mandei o rigor científico às favas e ofereci ajuda a um casal em um empório especializado. Mas foi porque eles queriam um estilo de cerveja e a pessoa que os atendia estava sugerindo quase o oposto. Os dois aproveitaram para tirar algumas dúvidas e agradeceram a ajuda. 

Algumas semanas depois, encontrei o mesmo casal em outra loja. Apressei-me em dizer que não era perseguidor cervejeiro, maníaco das fermentadas e nem outro personagem com ares de lenda urbana. Eles agradeceram e disseram ter adorado as dicas da ocasião anterior.

Por isso, da próxima vez em que você estiver na seção de cervejas de um supermercado e notar uma pessoa observando seus movimentos, não fique - muito - preocupado. Pode ser só alguém que se importa com a qualidade do que você vai consumir.

Informações e copos em falta

Apesar da boa variedade de rótulos, a falta de informações didáticas e aprofundadas sobre estilos cervejeiros nas gôndolas foi falha comum aos supermercados visitados pela reportagem entre os dias 3 e 5 de março (leia ao lado) - algo que precisa ser corrigido. Também faltam profissionais preparados para auxiliar na compra; o ideal seria que as redes contratassem sommeliers de cerveja, como fizeram para vinhos.

Embora alguns bares e empórios superem com facilidade a quantidade de cervejas dos supermercados pesquisados, a ideia foi buscar redes de compras com maior trânsito de pessoas, leigas e especialistas.

Além das ressalvas sobre informação cervejeira - alguns mercados informaram que tomarão providências -, falta também diversidade de copos específicos para cada estilo. Há muitas tulipas para lager, alguns copos de marcas e uma linha básica da Ruvolo. Mas em muitos casos é preciso apelar para as taças de vinho branco, flutes de champanhe ou taças de conhaque. 

Pão de Açúcar

Alia boa seleção e preços, apesar de a loja da Rua Alfonso Bovero ter variedade menor que Makro, Mambo e Zaffari. Vende a belga Duvel a R$ 13,90, menor preço entre concorrentes. Mas carece de marcas americanas e mais belgas, que poderiam ocupar lugar de lagers que pouco somam em novidade. A rede informa que oferece mais variedade nas lojas maiores e estão chegando rótulos da americana Brooklyn, das belgas Malheur, Rochefort, Achel, Westmalle e da escocesa Brewdog.

Carrefour

Bom preço, menos variedade; loja da Rua Pamplona tinha rótulos de duas micros nacionais e importadas mais famosas

Walmart

O Walmart da Av. Pacaembu teve menor seleção diferenciada. Poucos rótulos de micros e algumas importadas de macros. Rede diz que tem mais marcas, negocia novidades e promete informativos para ajudar clientes. 

Sam's Club 

Na loja do Bom Retiro, variedade é maior que no Walmart Pacaembu, mas é necessário pagar anuidade para comprar lá. O grande trunfo do Sam’s Club é ter em seu portfólio a americana Samuel Adams, que gerou corrida de bares para comprá-la. No dia 5, não havia nenhuma na loja. Rede diz que reposição já ocorreu e que fará eventos de degustação com clientes a partir deste mês. 

Zaffari

Loja do Bourbon Shopping foi a única a ter a escocesa Brewdog, a holandesa Urthel e a gaúcha Coruja. Importa alemã Kaiserdom e faz promoções. Mas poderia investir mais em cervejas trapistas, como Chimay, Rochefort e Westmalle. A única da categoria ali é a holandesa La Trappe. Rede diz ter receitas belgas não trapistas e que negociar para ter a Chimay.

Mambo

O Mambo tem boas inglesas, como Brakspear e Hook Norton Double Stout, as belgas da Chouffe e Maredsous e as brasileiras da Bamberg, de Votorantim - com receitas de origem alemã como Rauchbier e Alt. Mas carece de nacionais mais conhecidas, como Eisenbahn e Baden Baden.

Makro

O Makro Speciale na Vila Maria chama atenção pela oferta de cervejas em garrafa grande, como as belgas Duvel, Maredsous e Tripel Karmeliet. Há ainda rótulos mais difíceis de encontrar fora de empórios especializados, como a escocesa Ola Dubh 40, a inglesa Fullers Vintage Ale 2009 e a Liefmans Cuvée Brut, uma sour ale belga. Assim como o Mambo, vende a cobiçada - e cara por estas bandas - Deus. No dia da visita, porém, havia pouca variedade de americanas - apenas a Brooklyn Brown Ale e a Local 1.

Mais conteúdo sobre:
Paladar cerveja

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.