A economia ainda no buraco

No final do mês passado, estudos realizados separadamente pelo Bradesco e pelo Itaú Unibanco mostraram estimativas de um crescimento positivo do produto interno bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre de 2009. Com isso houve quem concluísse que o País teria saído da crise econômica que o atingiu desde setembro de 2008.

Roberto Macedo,

06 Agosto 2009 | 08h41

 

Na verdade, esses dados prenunciaram tão somente o fim de uma recessão segundo o critério de que ela ocorre quando o PIB trimestral mostra, relativamente ao trimestre imediatamente anterior, taxas de variação negativas em dois trimestres consecutivos, pois assim andou a economia no segundo trimestre de 2008 e no primeiro de 2009.

 

Neles essas taxas foram de -3,6% e -0,8%, respectivamente. Como as previsões dos dois bancos são de um crescimento próximo de 2% no segundo trimestre deste ano - insuficiente, portanto, para cobrir as duas quedas anteriores -, a economia ainda não voltou ao PIB que tinha antes da crise.

 

Assim, caiu num buraco, e o que acontece é que no último trimestre se firmou um movimento de saída dele, mas sem voltar ao topo. Portanto, a crise ainda permanece, e a alegria deve-se limitar a esse movimento para sair, o que não é pouco. Mas ainda há chão íngreme pela frente.

 

Para entender essa recuperação no seu estágio atual se pode, de modo simplificado, imaginar o PIB brasileiro impulsionado por quatro motores. Os dois primeiros são os do mercado interno, um deles representando a atividade produtiva, exceto o setor financeiro, e o outro, este último setor, no qual se destaca o papel do crédito. Os demais motores correspondem aos impulsos que vêm do setor externo na forma de exportações, com um motor ligado às economias desenvolvidas e o outro, a países emergentes, em particular a China.

 

Com a crise, os danos maiores ocorreram nesses motores externos e no do crédito interno, este impondo sacrifícios à produção doméstica. Na recuperação em andamento e ainda parcial, a economia também é sustentada principalmente pelos motores internos. E, ainda, pelo externo, impulsionado principalmente pela China. Isso em face da capacidade que os chineses vêm demonstrando de manter uma taxa de crescimento ainda bem elevada, o que amplia suas importações do Brasil, com reflexo positivo na demanda e nos preços de nossas commodities.

 

Quanto às economias desenvolvidas, as mais afetadas pela crise internacional, de um modo geral as previsões apontam para uma recuperação bem mais lenta e limitada, e desse motor não se podem esperar maiores impulsos para o Brasil no horizonte mais próximo.

 

Internamente, os dados do IBGE relativos ao comércio varejista nacional mostraram muito pouco da crise, mas neles têm grande peso os supermercados, que são voltados principalmente para as necessidades básicas dos consumidores, os quais procuram atendê-las mesmo diante de dificuldades.

 

Quanto ao crédito ligado ao comércio num sentido mais amplo, em particular alcançando bens duráveis e semiduráveis, os danos foram claros. Como o PIB, ele também está no buraco, e revela uma recuperação ainda parcial.

 

A propósito, passou a ser divulgado no mês passado um novo indicador produzido pelo Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), da Associação Comercial de São Paulo, o Índice Nacional SCPC de Crédito ao Consumidor. Relativamente a outros disponíveis, tem enorme cobertura ao abranger dados dos 2.200 maiores municípios do País. No âmbito de seus limites e vizinhanças, financeiras e lojas fazem consultas a serviços desse tipo, num volume que alcança perto de 25 milhões de consultas por mês. Em maio e junho esse índice voltou a mostrar variações mensais positivas, de 4,5% e 0,5%, respectivamente, mas o índice de junho revelou-se ainda 18,7% abaixo do alcançado pelo mesmo mês no ano passado.

 

Ainda no plano interno, o setor mais atingido foi a indústria. Nos últimos três meses de 2008 ela caiu no buraco a uma taxa mensal que, acumulada nesse trimestre, alcançou -19,9%. Em cada um dos dois primeiros trimestres de 2009 essa taxa foi 5,2% e 2,6%, respectivamente. Portanto, também insuficiente para trazer o setor ao topo.

 

Esses últimos dados da indústria também revelaram outro aspecto interessante, o de que a velocidade da recuperação vem caindo. Mensalmente, mostrou uma tendência de queda desde janeiro de 2009, quando foi de 2,2%, e chegou a apenas 0,2% em junho.

 

Essa lenta recuperação da indústria é um dos problemas mais preocupantes do momento. Ligado a ela, outro é o do real mais caro em dólares, que prejudica particularmente esse setor, tanto na sua competitividade interna, relativamente às importações, como na externa, pois inviabiliza parte de suas exportações.

 

E outras preocupações não faltam, com destaque para aquilo que faz mesmo a economia crescer de modo sustentado, a taxa de investimentos. Com a crise ela caiu de magros 19% do PIB para ridículos 16%. Não sem surpresa, países como a China, onde essa taxa é próxima de 40%, e a Índia, onde alcança cerca de 30%, não apenas mostram taxas de crescimento do PIB mais altas - previstas recentemente pela revista The Economist em 7,2% e 5,5% em 2009, respectivamente -, como também viram essas taxas caírem menos que no Brasil ao longo da crise. A nossa taxa em 2009 mostra, nas previsões mais otimistas, valores próximos de 1% este ano!

 

Assim, é bom que a economia se recupere, mas é péssimo ver o presidente Lula se contentando com pouco e sem oferecer ao País a perspectiva de um crescimento mais forte a médio e a longo prazos. Ao contrário, com seu próprio governo investindo muito pouco - mais engajado que está em expandir gastos de pessoal e outros que não investimentos -, ele atua como exterminador de um futuro bem melhor.

 

Roberto Macedo, economista (USP e Harvard), professor associado à Faap, é vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo

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