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José Roberto Mendonça de Barros
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A eleição de Trump

Fenômeno é parte de um processo global de crescimento do populismo à direita

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2016 | 06h00

O fenômeno Trump é parte de um processo global de crescimento do populismo à direita, baseado no ataque às elites, aos imigrantes e à globalização. Basta lembrar da Inglaterra, da Turquia, da Hungria e de outros casos. Olhando adiante, poderemos ter a eleição de Marine Le Pen na França. 

A confusão dos mercados nesses três dias reflete, antes de tudo, uma dúvida sobre o que nos espera no futuro: o eleito pela direita governará com o centro ou buscará impor o prometido na campanha? Minha percepção é que Trump vai tentar implantar suas ideias principais, apesar do sistema checks and balances existente na democracia americana. O novo presidente sempre foi autossuficiente e egocêntrico e fez um bem-sucedido “take over hostil” do Partido Republicano, com o qual sempre teve mau relacionamento. Duvido que alguém com essa história e com o poder conquistado vá compor com o centro. Ir nessa direção significaria enganar seus eleitores, o que acho que ele não fará, depois de uma campanha tão carregada de certezas de melhora de vida no interior profundo e de raiva. 

Veremos três linhas de ação: 

- Mudança nas diretrizes editadas por Obama que pode levar à expulsão de pessoas sem documentação (ver o site do governo de transição). Além disso, a entrada no país deverá ser mais rigorosa. O resultado desta orientação pode ser uma pressão nos salários e na inflação, fora o evidente custo humanitário. 

- Protecionismo via elevação de tarifas de importação ou outras medidas não tarifárias. É algo possível de ser feito sem o Congresso, o que acabaria também por resultar numa pressão inflacionária e, eventualmente, numa alta dos juros.

- Política fiscal expansionista com duas pernas: de imediato, é perfeitamente possível pôr em prática um plano de redução dos impostos para empresas e pessoas. O plano anunciado por Trump é da ordem de US$ 7 trilhões em dez anos, bem maior do que o pacote preparado pelos republicanos da Câmara de aproximadamente US$ 3 trilhões, no mesmo período. Em qualquer circunstância, a dívida pública será pressionada e com ela a taxa de juro. É o que vimos com o título de dez anos do Tesouro americano, o qual passou rapidamente de 1,85% para 2,15% enquanto escrevo este artigo. É provável que o FED ainda eleve os juros em dezembro. 

A outra perna da política fiscal expansionista seria um programa de obras de infraestrutura, em si bem vindo como parte de uma política econômica mais equilibrada. Entretanto, o efeito de obras públicas sobre a demanda leva tempo para aparecer e, provavelmente, só traria resultados a partir de 2018. O conjunto fiscal certamente pressionará a inflação e também a taxa de juro.

A pergunta relevante é: qual o efeito líquido de tudo isso sobre o crescimento? Aqui, certamente, temos de diferenciar o curto do médio prazo. No curto prazo não é totalmente claro qual o efeito líquido de todas essas mudanças, até porque a grande incerteza que vai prevalecer poderá levar as empresas a retardar e diminuir seus investimentos. Nesse caso, é possível, mas não certo, que tenhamos um impacto negativo sobre o PIB, vindo de expectativas, inflação e juros.

O que não me parece haver dúvida é que, do ponto de vista do PIB global, o resultado da eleição foi ruim, pois as principais economias, que já sofrem com problemas econômicos e políticos, penarão com as dúvidas sobre o que ocorrerá na maior economia do mundo. 

Por outro lado, não pode haver dúvida sobre o que acontecerá no médio prazo: a produtividade, que já vem tendo um desempenho sofrível, certamente não crescerá muito. Basta pensar nos custos de ter que, eventualmente, reorganizar cadeias de suprimento. Se isso ocorrer, o crescimento terminará mal. Mais do que tudo, os sonhados empregos industriais no Meio-Oeste não deverão reaparecer porque, mais do que a China, é o progresso técnico que tem sido a maior fonte de redução de postos de trabalho, e isso não mudará com a nova política econômica.

Para o Brasil, creio que os efeitos serão ruins, mas não dramáticos. O país é relativamente fechado, dependendo pouco de acordos comerciais, ao contrário, evidentemente, do caso do México. Vamos sofrer via comércio e crédito. Entretanto, somos tão pequenos em relação à liquidez internacional que acredito que bons projetos continuarão a ser financiados. 

*Economista e sócio da MB Associados; escreve quinzenalmente

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