A embaixadora do cinema

Nos últimos cinco anos, Laís Bodanzky levou filmes de graça a 625 mil pessoas pelo interiorzão do Brasil

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

13 Dezembro 2009 | 00h00

É provável que você não lembre como foi a primeira vez em que esteve em uma sala de cinema. É provável, aliás, que essa experiência - filme, escurinho, pipoca... - até seja banal em sua vida. Mas, em um país de tantas discrepâncias econômicas e culturais como o Brasil, muita gente nunca foi ao cinema. E, nos últimos anos, um grande número de brasileiros tem tido essa oportunidade única e inédita por meio de um projeto capitaneado pela cineasta paulistana Laís Bodanzky, de 40 anos, ao lado de seu marido, o também cineasta Luiz Bolognesi.

Desde que ganhou uma estrutura mais profissional, há cinco anos, graças ao apoio de uma empresa de concessão rodoviária - e, mais recentemente, de uma companhia telefônica -, as tendas do Cine Tela Brasil percorreram 267 municípios diferentes, exibindo 71 filmes brasileiros, de graça, em 3.214 sessões. Atingiram um público total de 625.735 pessoas, muitas das quais nunca tinham ido ao cinema antes. "A tenda é uma brincadeira lúdica", explica Laís. "Pois queremos passar a experiência sensorial que é o ritual de entrar no cinema. Por isso a sala escura, a cadeira arrumadinha, o tapete vermelho, o som bacana. Hoje temos ar-condicionado, tela cinemascope, som surround..."

Nem sempre foi assim. O projeto começou em 1996, com exibições em praças paulistanas, chamado de Cine Mambembe. E era mambembe mesmo. "Colocávamos o equipamento em nossa Saveiro e íamos para os locais", relembra. No ano seguinte, recém-casados, Laís e Luiz decidiram largar tudo e rodar o interiorzão do Brasil - levando o cinema, é claro. Em sete meses de viagem, estiveram em 20 cidades e colecionaram muitas histórias - que acabaram virando o documentário Cine Mambembe: O Cinema Descobre o Brasil. "Foi uma experiência maravilhosa. Conheci um Brasil incrível", diz Laís. "Levamos o cinema para aldeias indígenas, assentamento de sem-terra e até cidade sem luz elétrica."

Com a profissionalização da ideia, esse passado romântico ficou para trás. Para o Cine Tela Brasil funcionar, há uma estrutura de cerca de 40 profissionais das mais diversas áreas. Mas uma coisa não mudou. "A nossa filosofia: levar cinema brasileiro de graça para quem não tem acesso às salas convencionais", frisa.

Essa missão acaba resultando em manifestações bonitas de gratidão. Como uma senhora de Santo André que, durante a semana em que a tenda ficou por lá, fazia questão de levar café todos os dias para a equipe. Ou a história de uma garotinha de Francisco Morato que pediu para o pai levá-la para ver o espaço ser desmontado, porque queria se despedir, um por um, de todos os funcionários.

As últimas sessões do Cine Tela este ano estão marcadas para hoje - uma sala está no bairro do Butantã, zona oeste de São Paulo, e outra no município de Santa Isabel - e entre quinta-feira e sábado, no Jabaquara, zona sul da capital. A programação completa pode ser conferida em www.cinetelabrasil.com.br.

TRAJETÓRIA

Mas não é só pela missão de levar cinema para todos que Laís ficou conhecida. Filha do também cineasta Jorge Bodanzky, essa paulistana de Higienópolis teve uma infância cercada por rolos de filmes, projetores e câmeras. "Lembro quando meu pai fez Iracema - Uma Transa Amazônica (de 1976)", conta. "O filme acabou censurado, então minha casa vivia lotada de gente, porque ele promovia umas sessões escondidas."

A menina cresceu com o sonho de se tornar atriz. Chegou a estudar por um ano no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), do célebre diretor Antunes Filho. "Foi uma experiência forte, porque o Antunes trabalha com o ator completo, o ator autor", afirma Laís. "Lá, aprendi não só a atuar, mas também a dirigir o outro. E descobri que meu maior prazer era a concepção de um espetáculo."

Como já tinha feito alguns cursos de vídeo - "era final dos anos 80, época em que o vídeo ficava popular" -, começou a experimentar alguns trabalhos desse tipo. Entrou na faculdade de Geografia, na Universidade de São Paulo (USP), mas largou. Foi cursar Cinema, na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), na qual ingressou em 1989. Durante a graduação, morou numa república de estudantes no centro de São Paulo. E se virava como podia, filmando casamentos, festas de aniversário.

No início dos anos 90, sua carreira de cineasta começava a se desenhar, em trabalhos realizados como produtora, editora e camerawoman. E a se consolidar com o curta-metragem Cartão Vermelho, de 1994, que abocanhou dez prêmios e foi exibido em diversos festivais internacionais.

De lá para cá, Laís não parou de colecionar sucessos. O mais aclamado, sem dúvida, é o longa-metragem Bicho de Sete Cabeças (de 2000), que rendeu 47 premiações. Recentemente, ela dirigiu Chega de Saudade (do ano passado) e prepara o lançamento de As Melhores Coisas do Mundo - previsto para abril do próximo ano. "Será um filme com sotaque paulistano", adianta a cineasta.

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