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'A escola deve prestar contas do quanto agrega ao indivíduo '

Na era do ensino online, instituições precisam mostrar porque sua sala de aula é melhor que um curso em vídeo

Entrevista com

OCIMARA BALMANT, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h09

"Mesmo que a aula do vídeo seja dada por uma estrela, o aluno precisa saber para que está aprendendo aquilo com base no que é pragmático, aplicável. E essa contextualização quem faz é a escola".

A afirmação é da diretora de graduação do Instituto de Ensino e Pequisa (Insper), Carolina Costa. Para a educadora, a tecnologia precisa ser vista apenas como um meio, e cabe às instituições de ensino prestarem contas do quanto elas agregam aos indivíduos.

Com a proliferação de aulas virtuais, há quem vislumbre um futuro em que o aprendizado se dará todo online ...

Carolina Costa - O repasse de conteúdo on-line não é novidade. Esse modelo de ensino em que a pessoa é telespectadora de um professor na tela começou com os telecursos. A discussão ganhou corpo agora porque pela primeira vez este tipo de meio pode afetar profundamente o modelo de negócio das escolas. A escola, agora, tem de prestar conta sobre o que sua sala de aula é melhor do que um vídeo.

E daí, talvez com medo de perder o cliente, a opção tem sido usar essa tecnologia quase que indiscriminadamente.

Carolina Costa - Sim, como se servisse para tudo; uma outra panaceia. Não deveria ser assim. Os vídeos on-line são úteis para conhecimento básico, um repertório mínimo. Mas a sala de aula deve conduzir os alunos para os próximos níveis cognitivos e sociais, que é o raciocinar, o debate com os colegas, a aplicação e reconhecimento disso na vida real. É difícil falar para alguém de 20 anos que ele precisa aprender Cálculo 2 se ele não sabe a utilidade disso. Mesmo que a aula do vídeo seja dada por uma estrela, o aluno precisa saber para que está aprendendo aquilo com base no que é pragmático, aplicável. E essa contextualização quem faz é a escola; cabe a ela fazer a gestão da aprendizagem. E gerir não é dizer, "olha como o aluno está atento à telinha do tablet, está adorando", e depois aplicar uma provinha no final. Não é isso.

E como se gere de forma eficaz essa aprendizagem?

Carolina Costa - No Insper nós consideramos três mensagens centrais: unir a avaliação de docente à evidência de aprendizagem dos alunos, olhar para a inovação pedagógica com o olhar de eficiência de aprendizagem, e refinar constantemente os instrumentos de mensuração de aprendizagem. Isto é, não ficar apenas nas provas, mas saber como o aluno começou e terminou, como superou um conhecimento prévio inadequado.

Por onde começar?

Carolina Costa - Com um plano de aula definido. O professor precisa ter claro, a cada passo do processo, o que ele quer que o aluno adquira de competência, e isso, definitivamente, não é cumprir o livro do capítulo 1 ao 17. Exemplo: dizer que o aluno vai aprender porcentagem não é um objetivo de aprendizagem, é um conteúdo. O objetivo é capacitar o aluno a fazer avaliação estatística e, para isso, ele precisa aprender sobre porcentagem. Se não estiver assim, é só uma intenção que dá muito pouca pista ao professor de como ele deve fazer uma questão de prova, que acaba se tornando uma avaliação consequencial, e não intencional, como deveria ser. Aliás, a avaliação inteira deveria estar pronta no primeiro dia de aula. É o desenho do curso de trás pra frente: antes do começo das aulas, eu sei o que eles precisam saber e sei também como vou medir o aprendizado. O segredo mora no desenho da atividade, não na esperança de que eles aprendam.

E essa mensuração não deve ser só aquela provinha escrita, não é?

Carolina Costa - Não, de forma alguma. No Insper, ressuscitamos a antiga chamada oral. A avaliação de um de nossos projetos - que consiste na ida de alunos a determinadas empresas para sugerir soluções de problemas reais - inclui apresentação oral, em que o aluno expõe todos os passos de sua intervenção. No início, muitos ficavam ansiosos para falar, depois aprenderam a interagir com a banca. Além disso, criamos uma forma de eles se avaliarem entre si, o que os fez aprender a dar feedback. O resultado é que, agora, consideram essa avaliação até como um treinamento para entrevista de mercado. Por isso, combato essa visão ainda forte de que a escola é para conteúdo e atividade. Ela tem de prestar conta do quanto agrega aos indivíduos.

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