À espera da tragédia

Quem assiste hoje aos jogos do Chelsea nem imagina que esse elegante e rico time de Londres foi o berço do hooliganismo inglês - modelo de vandalismo de torcidas exportado para o mundo. Nos anos 60, o clube era identificado com uma massa de operários que usava os confrontos nos estádios para despejar seu desencanto e seu ódio ao sistema. A violência era mais "divertida" que o futebol. Três décadas depois, o Chelsea se tornou o exemplo de clube organizado e de torcida sofisticada, símbolo de uma Inglaterra orgulhosa da potência de sua liga nacional e de seus ricos clubes. Qual foi a "mágica"?

MARCOS GUTERMAN, JORNALISTA, O Estadao de S.Paulo

09 Dezembro 2009 | 00h00

Nenhuma. O futebol inglês superou sua fase "primitiva" em razão de uma combinação de fatores e de oportunidades históricas. Em termos gerais, a passagem dos anos 80 para os 90 marcou a transformação da economia britânica, a partir da profunda liberalização promovida pela premiê Margareth Thatcher. O poder sindical foi dizimado, as estatais foram desmontadas e o país se tornou a Santa Sé da globalização. Nada disso combinava com a estrutura arcaica do futebol inglês, então dominado por clubes paroquiais e deficitários, cujos torcedores violentos representavam tudo o que a Dama de Ferro queria destruir no país em seu projeto de modernização.

A tragédia de Sheffield foi o pretexto de que Thatcher precisava. Em 15 de abril de 1989, num jogo Liverpool x Nottingham Forest, 96 torcedores morreram asfixiados, pisoteados e esmagados nas grades por causa da desordem na entrada do Estádio Hillsborough. Como resposta, o governo obrigou os clubes a adaptar os estádios a brutais exigências: entre outras coisas, houve demarcação rígida dos lugares, com ingressos numerados; o uso intensivo de câmeras para flagrar baderneiros; e o fim dos alambrados e dos fossos, tanto para evitar novos incidentes como o de Sheffield, como para deixar claro aos torcedores os limites ditados pela civilidade, sob pena de duras punições aos clubes.

Funcionou. Os hooligans deram lugar aos torcedores sofisticados, às mulheres e às crianças, transformando o ambiente nos estádios. E, mesmo com o ingresso relativamente caro (equivalente a US$ 50), os assalariados continuaram a ir ver seu time do coração. A mudança deflagrada em 1989 alterou o perfil também dos clubes, que tiveram de se capitalizar para atender às exigências do governo. Investidores perceberam a mina de ouro que se estava oferecendo, praticamente a preço de banana. Com ações em bolsa, dinheiro da TV privada e estádios mais seguros e cheios, os times ingleses se tornaram os mais poderosos do mundo.

Essa história mostra que uma tragédia pode ser oportunidade de mudança. No caso dos britânicos, tiveram visão e aproveitaram o momento, mesmo ao custo de marginalizar uma massa considerável de torcedores. No caso do Brasil, é improvável que isso ocorra, principalmente porque nossos "hooligans" são tratados como uma família pelos cartolas.

A maioria dos grandes clubes brasileiros vive relação de dependência e troca de favores com as torcidas organizadas, tornando-as praticamente parte orgânica dos times. O cenário inviabiliza a criação de condições mínimas de civilidade nos estádios para atrair o torcedor comum e isolar o baderneiro. Some-se a isso a tibieza do poder público para fazer prevalecer a lei e temos aí o caldo de cultura que ensejou a batalha campal no estádio do Coritiba.

A modernidade parece não interessar ao futebol brasileiro - nem aos cartolas, aferrados a seus feudos de poder; nem aos torcedores organizados, que se apropriaram de estádios e clubes; nem ao governo, que hesita na hora de agir para enfrentar os problemas do futebol, em razão de cálculos políticos inconfessáveis. Talvez seja necessária uma tragédia como a de Sheffield para que isso mude.

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