À espera de decisão, fiéis sofrem com o frio

Apesar da umidade e temperatura de 8°C, 30 mil reuniram-se na Praça São Pedro

JAMIL CHADE , ENVIADO ESPECIAL / VATICANO , O Estado de S.Paulo

13 de março de 2013 | 10h18

A Praça São Pedro foi tomada ontem por uma multidão que enfrentou um frio de 8°C sob a chuva fina da noite romana e, contrariando todas as previsões - até mesmo dos mais experientes vaticanistas -, aguardou pacientemente para conferir a cor da fumaça que sairia da primeira votação no conclave, que terminou indefinida. Não faltou nem mesmo um protesto, abafado imediatamente e de forma brusca pela polícia.

Se, nos últimos dias, o processo de transição na Igreja não se comparava ao de 2005, quando multidões tomaram Roma após a morte de João Paulo II, ontem, pela primeira vez, a emoção na Praça São Pedro deu ao local uma dimensão parecida com a de oito anos atrás. Até mesmo assessores do cardeal Odilo Scherer não resistiram, percorrendo a praça com empolgação.

De acordo com informações da polícia, cerca de 30 mil pessoas acompanharam o resultado do conclave na praça. Uma volta pelo local era suficiente para escutar grupos falando uma dúzia de línguas diferentes.

Crianças, famílias com cachorros, casais de namorados, grupos de religiosos e turistas, além de centenas de jornalistas de todo o mundo lotavam o local, apesar de o clima frio e úmido não ajudar e a chaminé mal aparecer na escuridão.

Na noite de Roma, a fumaça - preta - só pôde ser vista pelos telões espalhados pela praça. Não faltaram ainda freiras cantando, enquanto repórteres, fotógrafos e operadores de câmera esbarravam nas religiosas.

Manifestação. A relativa calma foi interrompida por um protesto. Duas mulheres surgiram na praça e, diante das câmeras, fizeram topless com mensagens contrárias à Igreja e em favor da paz, e ainda soltaram uma fumaça rosa, em um protesto ironizando a fumaça da Capela Sistina.

Ambas foram imediatamente detidas e levadas do local por um grupo de policiais, de forma enérgica.

Os agentes rejeitaram informar qual seria o destino de ambas. Há duas semanas, durante a despedida do papa emérito Bento XVI, o Estado presenciou, na mesma praça, policiais censurando qualquer placa com críticas à Igreja.

Pela previsão do Vaticano, a primeira fumaça deveria sair às 19 horas. Enquanto ela não aparecia, cresciam as especulações de que o atraso se devia ao fato de a escolha já ter sido realizada.

"Há algo errado. Está demorando muito. Acho que já chegaram a um papa", dizia a italiana Nora.

Às 19h45, a fumaça apareceu. A sensação de euforia imediatamente se transformou em um clima de pragmatismo com pitadas de frustração. Jessica e Amy, duas americanas, lamentavam a falta de uma decisão. "Queremos um papa logo", disse a estudante Amy.

Já o frei brasileiro Alexandre Scapolan, de Barretos, afirmou que gostou do fato de o papa não ter sido eleito no primeiro dia. "Isso está mostrando a maturidade da Igreja e dos cardeais. Não se pode resolver as coisas de um dia para o outro", afirmou.

Se em 2005 o Vaticano causou confusão por não ter instalado um sistema em que a cor da fumaça era explícita, ontem a Santa Sé ficou satisfeita com o resultado de seu novo sistema. A chaminé expulsou uma forte e longa fumaça negra, não deixando dúvidas a ninguém.

"Não tem problema", disse Bruno, um seminarista brasileiro. "Voltaremos aqui amanhã (hoje). Esse é um momento histórico e ninguém vai querer perder", completou, enquanto deixava a praça.

Em um texto publicado ontem, o cardeal americano, Timothy Dolan afirmou que a Igreja deverá ter um novo papa até amanhã.

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