A excelência à espera de um bom material

Balé da Cidade prova que o melhor de Wii Previsto e Coisas Que Ajudam a Viver é o desempenho refinado de bailarinos

Crítica Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

10 Dezembro 2009 | 00h00

As duas únicas estreias do Balé da Cidade de São Paulo em 2009 foram apresentadas no último fim de semana, no Sesc Pinheiros. O melhor dos espetáculos Wii Previsto, de Alex Soares, e de Coisas Que Ajudam a Viver, de Susana Yamauchi, está no desempenho dos bailarinos.

Profissionais que se apresentam com garra e competência produzem uma dança de acabamento refinado. Renovado em quase metade de seus membros, o elenco impressiona pela clareza com que cada um deles se movimenta no palco, pela precisão com que distribuem os pesos dos seus gestos no espaço, pelo seu fino equilíbrio entre experiência e frescor. E quando uma companhia dança com tal excelência, é também o trabalho de suas assistentes que brilha junto dos talentos individuais. No caso, as ensaiadoras-artífices são Lumena Macedo e Suzana Mafra.

Todavia, trata-se de um elenco que, infelizmente, não encontrou, nas duas criações que apresentou, material à sua altura. Coisas Que Ajudam a Viver, dirigida por Susana Yamauchi, lembra um desfile quase interminável de situações que vão se acomodando dentro da obra. Parece um contêiner de cenas, às quais falta uma dramaturgia que pontue, recorte e dimensione os seus materiais. Tudo vai se equivalendo, como se fosse mais do mesmo, quando se trata de material ainda à espera de edição.

A busca pode ter sido a de uma narrativa fragmentada, como consta do texto do programa que a diretora assina. No entanto, a fragmentação como obra artística não é o que aparece quando um todo tem seus elementos separados. Ela se refere a um tipo de estado daquilo que não existe como todo, por isso não tem partes. Em sendo dessa maneira, não surge somente com a simultaneidade das cenas. Emergeria, quem sabe, na autonomia delas - o que não sucede, nesse caso.

Talvez por haver brotado de uma parceria entre Susana Yamauchi e os intérpretes, tenha se transformado nessa coleção de materiais confortáveis que impedem os "ruídos propositivos" e os "diferentes estados de tensão" que o mesmo texto anuncia.

Em Wii Previsto, o quadro é outro. Há um eco de proximidade excessiva com a movimentação de Canela Fina, obra que o Balé da Cidade de São Paulo estreou no ano passado, assinada pelo catalão Cayetano Soto. Trata-se da terceira coreografia criada por Alex Soares, que nela indica buscar os mundos diferentes que a nossa percepção pode criar.

Distribui silêncios e escuros ritmicamente, desenha um espaço desdramatizado, mas a ambientação cênica de Wilson Aguiar se sobreimpõe a tudo. Promove uma inversão nas prioridades perceptivas, transformando a coreografia em uma preenchedora das suas necessidades.

As duas obras precisam passar por ajustes. Há que contar com o sucesso deles.

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