A falência dos sonhos ideológicos

Em O Planalto e a Estepe, o angolano Pepetela narra história de amor (quase) impossível em meio à ruína dos ideais políticos

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

28 Dezembro 2009 | 00h00

Uma duradoura história de amor, resistente até a momentos turbulentos da História - para escrever O Planalto e a Estepe (Leya Brasil, 192 páginas, R$ 34,90), o angolano Pepetela inspirou-se em um relacionamento real que, temperado pelas suas técnicas da ficção, se transformou na paixão do angolano Júlio pela mongol Sarangerel em plena União Soviética durante a década de 1960, quando diversos ideais humanitários ruíram por conta da truculência de governos irredutíveis.

Júlio é um estudante entusiasmado com os ideais da revolução e ansioso por levar os preceitos socialistas ao seu país. Também desejosa de um mundo mais justo, Sarangerel se apaixona pelo angolano quando ambos estudam em Moscou. O que seria um simples relacionamento, no entanto, se transforma em um drama de separação, uma vez que ela é filha de um alto dirigente da Mongólia que lhe reserva casamento com um importante figurão de seu país. Nem mesmo uma gravidez inesperada consegue manter o casal unido.

Ao ambientar o romance na União Soviética, Mongólia, Argélia e Cuba, Pepetela aproveita uma fase delicada da humanidade para mostrar a falência das ideologias - no momento em que os interesses coletivos abafavam as individualidades, o aparente fracasso da união entre Júlio e Sarangerel faz eco com a desilusão de um regime que se autoproclamava perfeito, mas que, na verdade, vivia submerso nos mesmos vícios daqueles que criticava.

O tema, aliás, fascina Pepetela (pseudônimo adotado pelo sociólogo Arthur Pestana) - em A Geração da Utopia, ele misturou fatos históricos e ficção para narrar a trajetória de um grupo de jovens que deixa Angola para estudar na Lisboa da década de 60. Sobre o assunto, o autor respondeu às seguintes questões por e-mail.

Os amores são mais impossíveis hoje que décadas atrás, mesmo com toda evolução das formas de comunicação? Por quê?

Acho que os amores são sempre difíceis (impossível não há) e é isso que lhes dá gosto especial. Falo dos amores de que nos recordamos. As dificuldades até podem mudar com os tempos e as circunstâncias, mas continuam a apimentar uma história.

Em O Planalto e a Estepe, a derrocada do amor é inevitável por conta do desmoronar da União Soviética?

Espero que os leitores não o compreendam assim. Houvesse derrocada ou não da União Soviética, esse amor existiu e teve o fim que lhe foi apontado.

A narrativa sofre grandes transformações, a ponto de o primeiro capítulo do livro ser muito distinto, por exemplo, do penúltimo. Como foi o processo de criação?

Normalmente não conheço o fim dos meus livros, até lá chegar. Neste caso, antes de o começar, sabia como terminaria, por se tratar de uma história que tem um fundo de verdade. Como cobre um espaço de tempo relativamente longo e mesmo espaços geográficos variados, pode pois acontecer que os ritmos de narrativa mudem, por vezes saltando anos, por vezes se debruçando mais demoradamente sobre um detalhe. Será uma explicação possível. Também pode ter a ver com a expectativa do leitor.

A falência das utopias ideológicas é o pano de fundo para a história de amor.

Conto uma história de amor que aconteceu realmente nas suas linhas mestras. Ela se desenrolou em determinado espaço e época. Pela própria atividade do personagem masculino, a trajetória segue um pouco da História de Angola. Parece-me ser esse o pano de fundo. Se houve utopias que se mostraram pelo meio, isso é devido apenas ao fato de elas terem tido interferência na história de amor.

O final deixa uma sensação de desamparo, apesar da redenção amorosa. Essa era sua intenção?

Bem, não me parece justo desvendar as minhas intenções. Cada leitor tem a liberdade de fazer a sua leitura e o autor não tem o direito de lhe cortar essa liberdade, influenciando com o que queria ou não queria fazer.

Racismo é um tema delicado, tratado devidamente no livro. É um problema preocupante na África, não?

O racismo é um problema cada vez mais preocupante no mundo inteiro. A dado momento, parecia que avançávamos para sociedades mais permissivas e diversificadas, mas de repente há regressos dolorosos a preconceitos absurdos. Claro, as sociedades vão sendo cada vez mais diversificadas e é impossível impedir isso, mas há sempre tendência de uns quererem atirar os outros para guetos. Será que o homem é mesmo um animal racional? Por vezes parece ser apenas animal.

Trecho

A minha vida se resume a uma larga e sinuosa curva para o amor. Começando por um caminho longo até Moscou. Não vos contarei todos os detalhes dessa viagem.

Houve outras, também importantes, houve mesmo muitas viagens. Mas essa primeira viagem em arco amplo e súbitos desvios demorou mais, começou na Huíla, Sul de Angola, quando fui parido. Nasci no meio de rochedos. A casa, porém, era de adobe.

Casa de adobe com rochedos à volta. Título de quadro?

Era muito duro fazer uma casa de pedra, como na aldeia de Trás-os-Montes onde o meu pai tinha nascido. A minha mãe era já de algumas gerações huilanas e nascera numa mais pequena que a nossa. Por isso se construiu a de adobe, quando casaram. Os dois, com a ajuda de um serviçal muíla, chamado Kanina, nome de soba grande, ergueram a moradia, usando o barro de uma baixa sempre húmida para fazerem blocos secos ao sol.

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