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Reuters
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Gilles Lapouge
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A fênix do bunga-bunga

Como Marte, o deus da guerra cuja estátua insiste em restaurar, Berlusconi ainda tem poder de fogo

Gilles Lapouge,

29 de junho de 2013 | 15h43

Silvio Berlusconi é freguês dos tribunais. Desde que ingressou na política, em 1994, esteve 18 vezes às voltas com a Justiça. Nada mau. Mas, com a idade e a experiência, ele melhorou o desempenho. Acaba de ser condenado em primeira instância a 7 anos de prisão e proibido para sempre de exercer cargos políticos. Assim foram punidas as deliciosas noites que ele propiciou a convidados quase nus em sua grandiosa residência em Arcore, perto de Milão, das quais participou a jovem marroquina Karima El Mahroug, conhecida como Ruby e, às vezes, Bunga-Bunga, pois quando interrogado sobre que se fazia nessas noites misteriosas, o cavaliere respondeu: "bunga-bunga".

Desta vez o palhaço não fez sucesso. Com seu nariz vermelho e sapatos gigantes, deu com a cara no chão. E, como está com 76 anos, o rosto mais conservado que o de uma múmia egípcia, sua morte política parecia programada e rápida. No entanto, no dia seguinte à sentença, vimos que sob toda aquela maquiagem ainda havia vida.

E como ele vai ressuscitar? Como sempre fez: utilizando seu virtuosismo político contra as decisões da Justiça. O desafio é claro: "Se o governo não vem em meu socorro, que fique sabendo que eu o reduzirei a pedaços".

De fato, a equipe do primeiro-ministro Enrico Letta (democrata-cristão) só pôde ser formada com apoio e participação do partido de direita de Berlusconi, o Povo da Liberde (PDL). Berlusconi recusou-se a participar do gabinete Letta, mas pôs seus homens. Se der ordem para deixarem Letta, o governo cai.

E depois? Será necessário convocar eleições legislativas. E por mais estranho que possa parecer, o PDL provavelmente sairá vitorioso. Lembremos que nas últimas eleições havia três formações na liderança: a de centro-esquerda, o PDL (de direita) de Berlusconi e um partido "estraga-festa", o Movimento Cinco Estrelas, conduzido pelo velho cômico Beppe Grillo. O Movimento é uma nebulosa no estilo esquerda populista, que se aproveitou das decepções, dos temores e ressentimentos de um país achincalhado há anos.

Mas em poucos meses a configuração mudou. Beppe Grillo, em particular, perdeu o fascínio. À força de proferir insultos a torto e a direito, cansou seu público. Sua popularidade despencou. Na última pesquisa ele não obteve mais do que 24% de aprovação. Em caso de novas eleições, a centro-esquerda de Pier Luigi Balsani reuniria 30% dos votos e a direita de Berlusconi, 32,4%.

Outra pesquisa põe a esquerda ligeiramente à frente do PDL. Isso pouco importa. A verdade é que, se Berlusconi decidir, conseguirá derrubar o governo Letta. E nas eleições que se seguiriam a direita sairia vitoriosa, ou pior: impediria a esquerda de formar um governo. Seu poder de criar problemas é imenso.

É assim que Berlusconi navega há 30 anos nas tempestades e na lama e burla a Justiça, apesar de suas fraudes fiscais e orgias babilônicas.

Berlusconi não fala, mas se manifesta por meio da sua artilharia pesada, ou seja, os jornais que estão às suas ordens. Um exemplo: no Il Foglio, de Milão, Giuliano Ferrana, talentoso jornalista que passou em poucos anos da extrema esquerda para os conservadores, fulminou os juízes que, em Milão, condenaram Berlusconi. Como três deles eram mulheres, Ferrana chamou-as de "as Fúrias". E afirmou que as três "Fúrias" (aliás, comunistas) deram "livre curso a seus preconceitos e saciaram a fome de vingança deste país devasso". E acrescentou que as festas "bunga-bunga" que Berlusconi organizava em seus palácios eram diversões "ternas e galantes".

Berlusconi tem outro trunfo. Sua filha mais velha, Marina Berlusconi, poderá candidatar-se caso o governo Letta, traído por Berlusconi, cair. Ela tem experiência. Empresária como o pai, dirige a magnífica Editora Mondadori e é casada com um ex-astro do balé do Scala de Milão.

É evidente que, se ela tiver sucesso, o pai estará protegido contra qualquer ação judicial. Além disso, Marina usa o mesmo sobrenome do pai - e na Itália esse sobrenome é mágico. Enfim, dizem os amigos do cavaliere, nos EUA temos os Kennedys, os Clintons, os Bushs. Por que não uma dinastia Berlusconi na Itália?

À espera de o barulho e furor se acalmarem, a vida continua. O que está pegando agora é a restauração de uma estátua no Museu das Termas de Diocleciano. A estátua representa Marte, o deus da guerra, viril por excelência. No decorrer dos séculos ela sofreu mutilações, perdeu algumas partes. Quando primeiro-ministro, Berlusconi havia ordenado que as partes mutiladas fossem substituídas por próteses, de modo que Marte recuperasse o fascínio anterior. Mais tarde, porém, o governo derrubou a ordem de Berlusconi e hoje operários trabalham retirando as partes modernas acrescentadas à estátua. E quais são elas? O escudo, a ponta da espada e o pênis do deus. / Tradução de Terezinha Martino

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