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A força da peruca sul-coreana

A indústria de perucas da Coreia do Sul é uma versão em miniatura da história moderna desse tigre asiático

The Economist

30 Julho 2017 | 05h00

"Compro o seu cabelo", anunciavam muitos dos camelôs que ocupavam as ruas de Seul nos anos 50. Após três anos de guerra com o Norte, a capital da Coreia do Sul estava devastada. As mulheres sul-coreanas cortavam suas madeixas, então usadas numa trança comprida ou num coque baixo, e as vendiam para comprar dólares, arroz e tênis.

Os ambulantes revendiam os cabelos em Guro, bairro de Seul onde, depois da guerra, foi instalado o primeiro complexo industrial exportador do país. Com um ano de conflito, metade das fábricas estava em ruínas. Na década de 60, milhares de operárias punham de molho, depois costuravam, cortavam e arrumavam em penteados os cabelos de suas compatriotas mais necessitadas.

A indústria de perucas da Coreia do Sul mostrou-se admiravelmente resistente. Hoje, o segmento em que a demanda mais cresce é o das próprias sul-coreanas, que não pensam duas vezes para desembolsar US$ 1 mil por uma peça da Hi-Mo, fabricante de perucas personalizadas que iniciou atividades em 1987 como exportadora e agora domina o mercado interno. Há cinco anos, a empresa criou uma segunda unidade, a Hi-Mo Lady. Suas perucas são fabricadas na China, com cabelos chineses entremeados com uma fibra sintética durável chamada Nexart, produzida pela própria Hi-Mo. As vendas externas continuam a todo vapor. Cinquenta anos após exportar as primeiras cabeleiras postiças, os fabricantes sul-coreanos, cujas plantas foram quase todas transferidas para o exterior, ainda produzem a maior parte das perucas vendidas no planeta, diz Lee Hyun-jun, da Associação Coreana de Peruqueiros.

O setor teve papel importante no desenvolvimento da Coreia do Sul. No fim dos anos 60, as perucas representavam, em faturamento, cerca de 10% do total das exportações do país. Na década seguinte, eram o terceiro produto mais exportado, atrás de têxteis e compensados. Acredita-se que um terço das perucas usadas pelos americanos na época fosse proveniente da Coreia do Sul, cujos fabricantes se beneficiaram de um embargo anticomunista imposto em 1965 às cabeleiras chinesas. Com forte apoio estatal, a indústria era símbolo do dirigismo econômico de Park Chung-hee, ditador que chegou ao poder com um golpe em 1961 e governou o país por 18 anos.

Tempos depois, as perucas viriam a simbolizar coisa bem diversa: a luta dos sul-coreanos para pôr fim ao regime de Park. Entre os principais aliados do ditador estava a YH Trade, fabricante de perucas que, em 1966, ao iniciar suas atividades, tinha dez funcionários. Em menos de quatro anos, empregava 4 mil pessoas e não tardou a ser agraciada com o prêmio oficial “Excelência nas Exportações”. Em 1979, em razão de seu endividamento excessivo, a YH demitiu centenas de funcionários. Cerca de 180 deles ocuparam a fábrica para exigir indenizações. A polícia invadiu o local e uma manifestante de 21 anos foi morta. Na fábrica estava Kim Young-sam, parlamentar que emprestou para os manifestantes o seu gabinete na Assembleia Nacional. Em 1993, ele se tornou o primeiro presidente civil da democracia sul-coreana.

A história da manifestante que morreu, Kim Kyung-sook, é semelhante à de milhões de sul-coreanas que deixaram a zona rural e migraram para Seul nos anos 70. Kim começou a trabalhar após terminar o ensino primário. Graças ao salário que recebia e mandava para os pais, seu irmão mais novo pôde concluir o ensino médio. Era comum que Kim ficasse na fábrica até de madrugada. Uma de suas colegas diz que elas eram “exploradas como máquinas”. Algumas acabaram desenvolvendo dependência química dos estimulantes que os superiores lhes davam para que permanecessem acordadas.

O posterior fechamento da YH também foi reflexo das mudanças por que passou a indústria sul-coreana de perucas. Na década de 80, com o crescimento econômico do país e a alta dos salários, as fábricas foram transferidas para a China e o Sudeste Asiático.

Na Coreia do Sul de hoje, os tormentos de operárias como Kim parecem coisa de outro mundo. O PIB per capita do país é semelhante ao da Itália. Mais de dois terços dos jovens vão para a universidade. A democracia está consolidada. Manifestações são rotina. Em janeiro, a Justiça inocentou quatro antigas operárias da YH que ainda eram processadas pela ocupação da fábrica. Apesar disso, a população tem vida estressante: está entre as que trabalham mais horas por dia no mundo desenvolvido. Os tricologistas dizem que as mudanças nos hábitos alimentares e a poluição também ajudam a explicar por que 25% dos sul-coreanos sofrem com perda de cabelos. Em razão disso, os produtos de combate à calvície constituem um mercado multibilionário. Cabeleiras bastas são sinal de sucesso profissional. Recentemente, um homem foi demitido em seu primeiro dia de trabalho num hotel depois que os chefes descobriram que ele estava ficando calvo. Ele recorreu à comissão de direitos humanos do país.

Os fabricantes estão atentos ao fenômeno: no ano passado, para promover suas cabeleiras postiças, a Hi-Mo ofereceu aluguel gratuito de perucas para recém-formados que quisessem fazer boa figura em entrevistas de emprego. As mulheres que abrem mão da vida doméstica para permanecer mais tempo no mercado de trabalho são grande consumidoras.

A Hi-Mo diz que a procura por perucas é crescente em diversas faixas etárias. De 2010 para cá, as vendas aumentaram mais de 40%. Entre os que compram pela primeira vez, os jovens são cada vez mais numerosos: mais de 25% dos consumidores homens estão na casa dos 30 anos. Os fregueses que a Hi-Mo conquista costumam permanecer fiéis às suas perucas. Se usadas todos os dias, duram um ano. Num país que apresenta uma das mais elevadas expectativas de vida do mundo, isso deve deixar muitos peruqueiros alegres.

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