A força redentora da beleza

O papa Bento XVI recebeu recentemente 260 artistas do mundo inteiro na mágica Capela Sistina, no Vaticano. O pianista brasileiro Alvaro Siviero esteve ao lado de personalidades como o compositor italiano Ennio Morricone, o arquiteto americano Daniel Libeskind, o cantor Andrea Bocelli, o diretor de cinema britânico Peter Greenaway, a pianista canadense Angela Hewitt, o arquiteto suíço Mario Botta, o escultor alemão de origem polonesa Igor Mitoraj, o cineasta russo Andrei Tarkovsky e a escritora italiana Susanna Tamaro.

Carlos Alberto Di Franco, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2009 | 00h00

Bento XVI, brilhante intelectual e um apaixonado pela música, defendeu o papel da arte como instrumento redentor. "É preciso construir um novo humanismo", disse o papa em discurso repleto de citações de personalidades como Dostoievski, Michelangelo e Herman Hesse. "Graças ao seu talento, vocês têm a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e coletiva, de suscitar sonhos e esperanças", sublinhou o pontífice.

Dostoievski coloca nos lábios de Dimitri Karamazov uma certeira definição do drama humano tal como Bento XVI o vê: "A beleza é uma coisa terrível e espantosa. É o duelo do diabo e de Deus, sendo o coração humano o campo de batalha." O papa também acredita que o mundo será salvo pela beleza.

Iniciativas, inúmeras, quase anônimas e cimentadas na força da solidariedade comprovam o papel redentor da arte. Basta pensar, por exemplo, no magnífico trabalho de resgate social desenvolvido pela Orquestra Sinfônica de Heliópolis. Favelas frequentemente ocupam a crônica policial. A música, no entanto, transportou Heliópolis para as páginas de cultura. O consagrado maestro da Orquestra Filarmônica de Israel, Zubin Mehta, vislumbrou em Heliópolis, uma imensa favela cravada no coração de São Paulo, um canteiro de talentos. Jovens, abandonados pelos governos e teoricamente predestinados a uma vida de crime, drogas, prostituição, miséria e dor, encontraram na música o passaporte para o resgate da dignidade e da esperança.

A beleza é revolucionária e transformadora. Por isso Bento XVI enfatizou que "uma função essencial da verdadeira beleza, já evidenciada por Platão, consiste em comunicar ao homem uma espécie de "choque" que o faz sair de si mesmo, arranca-o da resignação, da acomodação do cotidiano, e o faz até mesmo sofrer, como um dardo que o fere, mas precisamente por isso o "desperta", abrindo-lhe novamente os olhos do coração e da mente, dando-lhe asas, impulsionando-o em direção ao alto".

Jornais, frequentemente dominados pelo noticiário enfadonho do País oficial e pautados pela síndrome do negativismo, não têm "olhos de ver". Iniciativas que mereceriam manchetes sucumbem à força do declaratório. Reportagens brilhantes, iluminadoras de iniciativas que constroem o País real, morrem na burocracia de um jornalismo que se distancia da vida e, consequentemente, dos seus leitores. "Bad news are good news" - o mote, alardeado pelos militantes do jornalismo baixo-astral, tem produzido um excesso de matérias em lá menor. O negativismo gratuito é, sem dúvida, uma das deformações da nossa profissão. "O rabo abana o cachorro" - o comentário, frequentemente esgrimido em seminários e debates sobre a imprensa, esconde uma tentativa de ocultar algo que nos incomoda: nossa enorme incapacidade de trabalhar em tempos de normalidade.

Estou convencido de que boa parte da crise da imprensa pode ser explicada pelo seu desligamento da realidade, por sua orgulhosa incapacidade de ouvir o mundo real. Os anos de chumbo da ditadura foram os melhores aliados da mediocridade profissional. A luta contra o arbítrio escondeu limitações e carências. A censura, abominável e sempre burra, produziu poucos heróis verdadeiros, mas também gerou gênios de fachada. Quatro linhas de protesto, independentemente da qualidade objetiva da matéria, já eram suficientes para conferir um passaporte para a celebridade. A democracia, no entanto, tem o poder de derrubar inúmeros mitos. A estabilidade conspira contra a manchete fácil.

"Quando nada acontece", dizia Guimarães Rosa, "há um milagre que não estamos vendo." O jornalista de talento sabe descobrir a grande matéria que se esconde no aparente lusco-fusco do dia a dia. O encontro do papa com os artistas, evento de grande importância, embora pouco divulgado pela mídia brasileira, suscita reflexões a respeito do nosso ofício. A arte, a beleza, a grandeza humana mereceriam maior destaque. A notícia positiva, tão verdadeira quanto a informação negativa, é uma surpresa, quase um fato inusitado.

A mídia, argumentam os aguerridos defensores do jornalismo mundo-cão, retrata a vida como ela é. Teria, contudo, o cotidiano do brasileiro médio nada além de tamanhas e tão frequentes manifestações de violência e de tristeza? Penso que não. Há uma evidente compulsão para pinçar os aspectos negativos da realidade.

Por mais que a sociedade tenha mudado, tenho a certeza de que o pretenso realismo que se alardeia para sustentar o excesso de violência e mau gosto que diariamente desaba sobre leitores e telespectadores não retrata a realidade vivida pela maioria esmagadora da população. Na verdade, ainda há muita gente que cultua os valores éticos, os quais dão sentido e dignidade ao ato de viver. Ainda há pessoas que diante do vizinho doente correm a socorrê-lo, sofrem por um criança abandonada e estendem a mão a um amigo necessitado.

"Vocês são guardiães da beleza", disse Bento XVI aos artistas. Nós, jornalistas, somos ou deveríamos ser, "guardiães da verdade", pintores da vida. Uma vida que é feita de luzes e sombras. A denúncia do mal é um dever ético. Mas a beleza e a grandeza humana bem valem uma manchete.

Carlos Alberto Di Franco, doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, professor de Ética, é diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br) e da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com) E-mail: difranco@iics.org.br

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