''A gente perdeu a identidade, a história''

Músicos de Paraitinga lamentam

, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2010 | 00h00

São Luís do Paraitinga não se reencontrou depois da enchente que praticamente destruiu a cidade no segundo dia do ano. Os destroços de grande parte dos casarões e da Igreja Matriz permanecem no mesmo lugar, mas o baque maior vem agora, no carnaval. Sempre festeira, com rico acervo cultural, no qual se sobressaem a música e as tradições caipiras, a cidade não terá folia. Silenciaram-se os bumbos e as marchinhas que neste ano atrairiam mais de 120 mil pessoas.

São mais de 20 blocos, alguns com nomes inusitados como Balacobaco, do Saci, Pé na Cova, Pai do Troço e o Juca Chaves, o mais famoso deles, que abriria oficialmente a folia. Neste ano, não terão como sair às ruas. "Faltam condições e espírito para isso", afirma o músico Galvão Frade Junior, integrante do Juca Teles e líder do Maricota. Na enchente, ele perdeu um estúdio digital, gravações originais, registro de todos os festivais de marchinhas da cidade. Com a água, foram-se fotos, composições, imagens e muitos registros da cultura local.

A cidade tem mais de 600 músicos. Alguns vão tocar em cidades da região e de outras regiões do Estado, que, em solidariedade, estão levando o carnaval de marchinhas para animar seus foliões. Muitos perderam instrumentos, partituras, fotos e registros importantes da musicalidade e das expressões da cultura local.

"A gente perdeu a identidade, a história. Isso não tem mais como voltar", lamentou o presidente da Fanfarra Monsenhor Ignácio Gioia, Benedito Donizete Antunes, de 39 anos, o Canário. Da sua casa, tomada pela enchente, Canário viu a água levar praticamente todos os instrumentos da fanfarra e parte de seus mais de 200 troféus.

A fanfarra era um grupo de 45 músicos que acompanhavam o animado Bloco do Bebebum, que saía do bairro São Benedito e trazia como "abre-alas" um marmanjo vestido de bebê, com direito a fralda e chupeta.

Canário ainda não conseguiu voltar para casa e o que lhe parece ser o mais difícil é aceitar a perda da fanfarra. "Convivia com os ensaios todos os dias. Agora vai ficar um buraco." As festas da cidade, segundo ele, não terão mais o mesmo brilho. "O prejuízo é de mais de R$ 120 mil e não temos instrumentos nem lugar para ensaiar."

Este seria o 27º ano em que o artista Benito Campos, de 55 anos de idade e 30 de carnaval, encarnaria o personagem mais famoso da folia, o Juca Teles. De fraque e cartola, ele discursaria hoje para abrir oficialmente a festa. Fundador do bloco Juca Teles e agitador de outros blocos, como o Espanta Vaca, Pai do Troço e Cruis Credo, e "fazedor" de bonecões, neste carnaval ele vai ter de seguir outros rumos.

Nos dias de carnaval ele se apresenta com o bloco em Amparo, Águas de Lindoia, Serra Negra, São José dos Campos, Caraguatatuba. "Disfarça a dor de ficar aqui e as pessoas virem perguntar se não vai ter Juca Teles", disse. Antes, porém, garante que não vai deixar de cumprir um ritual de muitos anos, que é servir o tradicional "café do Juca", no sábado pela manhã, principalmente para pessoas mais carentes. "Isso é sagrado", afirmou.

Quanto à tragédia, Campos, apesar de não ter sofrido prejuízo material, é taxativo: a cidade nunca mais vai ser a mesma, embora haja expectativa positiva. "Estou sem chão, mas, de certa forma, sei que por trás de toda essa história está a nossa cultura musical, que não pode ser atingida por uma tragédia."

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