Felipe Rau/AE
Felipe Rau/AE

A goiabada está onde sempre esteve: Minas

Conheço bem estes senhores - trabalhei com eles, já faz tempo, em redações de jornal. Gente da melhor qualidade e comprovada competência, posso afiançar. Em comum, têm ainda o fato de serem mineiros - não residentes, porém praticantes. Como se diz na terra deles, que é também a minha: conheço meu gado. 

Humberto Werneck - Especial para o 'Estado',

14 Março 2012 | 19h38

Um deles, o José Maria Mayrink, natural de Jequeri, na Zona da Mata mineira, vem a ser, entre outras especialidades, o melhor guia nos meandros da Igreja Católica de que dispõe a imprensa brasileira. Não tenho dúvida de que não só vai ingressar no paraíso, daqui a muitos anos, como o fará por aquela entrada maneira que, inclusive lá, se abre apenas para os vips. 

O outro, Miguel Jorge, executivo de alto coturno e bastos bigodes, foi por longo tempo titular de uma das pastas mais vistosas do ministério de Lula. Mas é outra a pasta que, neste final de manhã, requisita sua atenção.

Em torno da mesa, vemos o ex-ministro monogamicamente concentrado num assunto de federal importância: uma goiabada que fez vir de sua cidade, Ponte Nova, também na Zona da Mata, diretamente dos tachos de cobre da Taninha, a Sebastiana, cujo filho é casado com uma sobrinha dele. Goiabada não só mineira como de família, portanto. 

O Miguel faz a encomenda por telefone, envia a ordem de pagamento e a Taninha manda de ônibus a preciosidade. Mais requinte, só se viesse em lombo de burro de Ponte Nova até São Paulo, onde agora, transplantada de um potinho para o prato, ela vai arriando ao peso de si mesma e deixando ver a natureza pedaçuda da melhor goiabada. 

Melhor? Não é o que acha o Mayrink, cuja língua eventualmente ácida neste instante se adoça para gabar as qualidades de outra goiabada, que, no mesmo prato, disputa a preferência dos jurados. Foi mandada vir de Jequeri - cidade que, aliás, não fica longe de Ponte Nova, município ao qual, se bem entendi, já pertenceu. É mais firme que a trazida pelo Miguel Jorge, mas não chega a pedir faca, bastando, para servi-la, uma colher. Embora em ritmo bem mais lento, a goiabada jequeriense também vai se derretendo - e nós com ela.

Como numa reunião de pauta de jornal, cada um faz a defesa do que tem a oferecer. Talvez porque ainda ativo no jornalismo diário, o Mayrink mostra mais aplicação e denodo que o concorrente. E não parece dar importância ao fato de que o ex-ministro do petista Lula tenha aprovisionado igualmente o tucano Fernando Henrique, o que faz da sua uma goiabada suprapartidária. Também não se abala quando o Miguel conta que, menino, ia e voltava da escola com o João Bosco - futuro autor, com Aldir Blanc, de algo que só Ponte Nova poderia inspirar, o decantado Rancho da Goiabada.

Se esta degustação veio a se realizar, foi porque o Mayrink, faz uns meses, tendo lido matéria do Paladar sobre goiabadas relevantes, ficou inconformado com a ausência, entre as top ten, daquela que a Maria da Conceição Gonçalves Niquini, a Maria de Lili, vem produzindo faz quase meio século (1964) no Sítio da Lagoa, em Jequeri, com a singela denominação Goiabada Caseira. É aos protestos do Mayrink que devemos este bem-vindo tira-teima. 

Afeito quem sabe a costumes políticos vigentes em Jequeri, ele promoveu intenso trabalho junto a colegas de jornal às vésperas da degustação. Na boca da urna, eu próprio fui aquinhoado com um alentado naco da goiabada da Maria de Lili. Cortesia, fique claro, que de forma alguma pesou no meu voto. Qual foi ele? Direi apenas, e não venha me acusar de mineirice: está perdendo quem ainda não se regalou com as fabulosas goiabadas que estes dois reis magos trouxeram das Gerais. 

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