A guerra do bolinho

EM JACAREÍ - Bolinho é feito com farinha de milho branca e linguiça de porco X EM SÃO JOSÉ - Massa leva farinha de milho amarela; recheio é de carne moída Farinha de milho na massa, carne no recheio e já para o óleo quente! Está pronto o bolinho caipira, um dos símbolos da cozinha vale-paraibana. Veja também: ESPECIAL: É da roça Você não pode perder. Mesmo! O pastel que vira sozinho Tomate até na cocada O arroz ficou vermelho! O que é que gosta de voar e é caviar? Amargo de doer, mas tem quem coma cru Em Bananal tem sempre truta As fadas da boca do tacho Caipira da gema Comida mineira é paulista. E também caipira Como é comum acontecer com pratos culturalmente emblemáticos, não há uma receita só. Duas cidades reivindicam a paternidade: em Jacareí, é feito com farinha de milho branca e linguiça de porco, e em São José dos Campos, com farinha de milho amarela e carne moída. Nas primeiras horas da manhã já tem gente segurando o bolinho no mercadão municipal de Jacareí. Considerado o melhor da cidade, o bolinho do Bar do Zequinha (R. Dr. Lúcio Malta, 315, 12 3962-3173) é branquinho, crocante, sequinho. Mais de 200 são fritos por dia. "Minha mãe punha bochecha de porco em tiras. Mas, como é muito trabalhoso, começou a usar linguiça. São feitos no dia", conta o dono do bar, José Maria de Souza, o Zequinha. Sentado à mesa da cozinha de sua casa, Zequinha conversou durante horas com a repórter. Falou de sua cidade, de onde só sai para ir "a Aparecida rezar e a Caraguatatuba salgar" e relembrou os tempos em que era possível pescar milhares de piquiras – um lambari pequenininho – no Rio Paraíba do Sul. Mas, Zequinha, e essa rixa Jacareí versus São José dos Campos? "A farinha amarela, sem querer desfazer de quem faz com ela, é mais forte..." Em São José dos Campos, é a Pastelaria do Sérgio (Trav. Chico Luiz, 56, 12 3922-7098), também no mercado central, o ponto tradicional dos bolinhos. "Todos os dias, há 49 anos, tomo esse mesmo café da manhã aqui", diz José Teodoro Filho, que devorava um entre goles de café. Diferentemente da linguiça, que é cozida antes de ser misturada à massa, a carne moída vai crua para a frigideira. Por isso, o bolinho deve ser frito por mais tempo. Tem sabor mais óbvio de bolinho que o concorrente: lembra um bolinho do boteco da esquina. A receita leva, além de farinha de milho amarela, farinha de mandioca para dar liga. "Acho que nasceu em Taubaté, porque meu sogro trouxe a receita de lá", aposta o proprietário, Ritsuo Bô. "Um pessoal diz que é de Jacareí. Acho que não. Estão é querendo puxar para o lado de Jacareí." É provável que o bolinho tenha sido originalmente feito com farinha de milho branca, pois até a década de 40 era mais fácil encontrar milho branco que o outro. O recheio, por sua vez, não era nem de carne moída nem de linguiça suína e sim de peixe – o lambari mencionado por Zequinha –, segundo relatos dos mais antigos. E era servido na Semana Santa. Polêmicas à parte, o negócio é esbaldar-se com os bolinhos espalhados não só por Jacareí e em São José, mas por todo o vale. E, se quiser divagar, que seja na mesa de bar, de barriga cheia (de bolinho).

29 Outubro 2009 | 09h37

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