A Guerra do Paraguai sob nova visão

Livro sobre mulher de Solano López reabre o debate sobre o conflito

Moacir Assunção, O Estadao de S.Paulo

02 de janeiro de 2010 | 00h00

Prestes a completar 140 anos do seu fim, em março de 2010, a Guerra do Paraguai ainda causa frisson na região e seus reflexos fazem com que o tema volte à tona. O recente lançamento do livro Calúnia - Elisa Lynch e a Guerra do Paraguai, dos escritores Michael Lillis e Ronan Fanning (Editora Terceiro Nome) trouxe dados novos sobre a trajetória da irlandesa, mulher do presidente paraguaio Francisco Solano López, que entrou em guerra, ao mesmo tempo, contra Brasil, Argentina e Uruguai. Durante toda sua história, Elisa foi injuriada por escritores dos três países da chamada Tríplice Aliança e até por paraguaios.

A Guerra do Paraguai, segundo mais cruento conflito do continente americano - depois da Guerra da Secessão (1861-1865) nos EUA -, começou em dezembro de 1864, com a invasão do Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul), ordenada por López. Segundo a historiografia, um erro de cálculo do ditador paraguaio.

López não contava com a aliança entre os rivais brasileiros e argentinos e achava que teria o apoio do caudilho Justo José de Urquiza. O general argentino era adversário do governo central de Bartolomeu Mitre, encastelado em Buenos Aires. Urquiza, porém, ficou do lado da Tríplice Aliança e ampliou sua fortuna pessoal vendendo cavalos aos aliados.

A causa mais direta do conflito foi a ascensão do Paraguai e seu interesse estratégico em manter o Uruguai independente, sem influência brasileira e argentina, para garantir a livre navegação do Rio da Prata - fundamental para o comércio do país na época.

MOBILIZAÇÃO

Para impor seus interesses, Assunção contava com uma ampla superioridade militar: cerca de 80 mil homens e 28 navios. Juntos, as forças da Tríplice Aliança não chegavam a um terço das paraguaias.

No entanto, a capacidade de mobilização do Brasil era muito maior. Estima-se que o Império tivesse cerca de 20 milhões de habitantes, enquanto o Paraguai não passava de meio milhão.

O recrutamento em massa, a formação dos chamados "voluntários da pátria", principalmente escravos, foi decisiva para a vitória dos aliados.

O conflito terminou em 1870 com cerca de 300 mil paraguaios mortos e aproximadamente 70 mil vítimas do lado da Tríplice Aliança. Segundo Francisco Doratioto, professor da Universidade de Brasília (UnB) e autor de Maldita Guerra (Cia. das Letras), a Guerra do Paraguai acabou um processo de consolidação dos Estados nacionais na região. A Argentina foi unificada e o poder centralizado em Buenos Aires. No Brasil, o conflito ajudou a derrubar a escravidão e a monarquia. Uruguai e Paraguai se firmaram como satélites das duas potências regionais.

DETALHES

O lançamento do livro Calúnia - Elisa Lynch e a Guerra do Paraguai ajudou a reviver a batalha sem fim travada por historiadores sobre os reais motivos que levaram Solano López à guerra. "Com o livro, volta-se a falar sobre o assunto. Sempre haverá algo de novo para falar sobre a guerra", afirmou Doratioto. Para o especialista, Calúnia ajuda a resgatar a história de uma das mais marcantes personagens do episódio.

"Até mesmo na minha obra, como em várias outras, Elisa Lynch é retratada como se fosse uma prostituta de luxo, o que era quase consensual. O mérito dos autores é a pesquisa exaustiva nos arquivos da polícia francesa para comprovar que ela não poderia ter atuado em uma famosa "casa de tolerância" em Paris", explicou o professor. A obra de Doratioto e de outros historiadores - como Ricardo Salles, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), autor de Guerra do Paraguai: Escravidão e Cidadania na Formação do Exército, e do professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Alfredo Menezes, que escreveu Guerra do Paraguai - Como Construímos o Conflito - ajudaram a mudar a visão sobre a conflagração no Brasil, até então fortemente influenciada pelo livro Guerra do Paraguai: o Genocídio Americano, escrito pelo jornalista Júlio José Chiavenato, lançado em 1979.

NOVA VISÃO

No livro de Chiavenato, o Paraguai de López, uma nação fortemente armada que invadiu Brasil e Argentina, passa de agressor a agredido.

O presidente paraguaio, visto até mesmo em seu país como um tirano, ganha veleidades quase socialistas e a Grã-Bretanha, potência hegemônica da época, é acusada de insuflar a Tríplice Aliança a atacar o país para destruir sua nascente indústria.

Essa interpretação, elaborada durante a ditadura militar no Brasil, tentava desacreditar o Exército brasileiro. Uma nova visão, mais equilibrada e livre de preconceitos ideológicos, surgiu nos anos 90, liderada por Doratioto.

"O trabalho de Chiavenato teve o mérito de chamar a atenção para o tema, que andava esquecido, mas é datado e tinha o objetivo principal de atacar a ditadura, destruindo seus símbolos, entre eles Duque de Caxias, principal comandante brasileiro, e o imperialismo americano, mirando no imperialismo inglês do século 19", afirmou Orlando de Barros, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

O fato é, que para o mal e para o bem, os destinos de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai continuam interligados desde então.

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