A história que rola entre duas traves

Em O Futebol Explica o Brasil, Marcos Guterman revela a forte ligação entre o esporte e a vida política e social do País

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

09 de novembro de 2009 | 00h00

Em O Futebol Explica o Brasil, Marcos Guterman, historiador e editor de Primeira Página do Estado, traça um arco que vai da chegada do "esporte bretão" ao País, no fim do século 19, até a conquista do pentacampeonato em 2002. Um longo percurso, de mais de 100 anos, no qual essa estranha atividade lúdica, importada por Charles Miller, um filho de escocês com brasileira, começou como esporte de elite, popularizou-se a ponto de parecer nascido aqui e tornou-se grande depositário de aspirações reais e simbólicas dos brasileiros.

O livro trata assunto tão vasto com uma periodização simples. Narra a chegada das primeiras bolas e jogos de camisas com Miller até a criação dos primeiros clubes, a maior parte deles privativos da elite branca do País. A partir daí, o livro progride por décadas, acompanhando a prática do jogo da bola entre nós e revelando o entrelaçamento entre seu desenvolvimento e a história nacional.

Na verdade, não se trata de fatos isolados, o futebol de um lado, a História (com agá maiúsculo) de outro. Ambos estão ligados e seria artificial distingui-los. Sendo como a frente e o verso, o próprio futebol faz parte da História brasileira e tanto a reflete como a influencia. Sacar esse ir e vir, observar essas linhas que se misturam, sem relação mecânica de causa e efeito, mas participando, ambas, do mesmo clima histórico, é o desafio para o pesquisador que pretenda examinar "a maior expressão popular do país", como diz o subtítulo do livro.

É fascinante, por exemplo, acompanhar como o futebol aglutina as expectativas dos brasileiros de que o País se torne enfim uma potência, como sua dimensão geográfica sugere. Esse desejo de grandeza pode existir de forma latente nas pessoas e se projetar em uma equipe de futebol, em particular o selecionado nacional, que se torna, então, um ponto privilegiado para análise do historiador, uma vez que resume o "ser nacional". "É o que acontece em especial a partir da Copa de 1938, na França", diz Guterman, que não hesita em classificá-la como a mais importante das Copas do Mundo, pelo menos para os brasileiros e nesse aspecto da afirmação nacional.

Era uma época de grandes paixões, pré-guerra, e os políticos há muito haviam percebido o futebol como capaz de catalisar as paixões de um povo e, eventualmente, dirigi-lo para onde se deseja. Mussolini havia compreendido isso na Itália (Vincere o Morire, Vencer ou Morrer, era o lema para a squadra Azzurra em 1934). Vargas, no Brasil, não ficava atrás e entendia muito bem o potencial simbólico do jogo da bola. "Isso apesar de preferir o golfe", lembra Guterman. Não por acaso, passou a fazer seus discursos no estádio do Vasco, em São Januário, "e não apenas porque o lugar era grande e comportava multidões, mas porque estava simbolicamente marcado pelo futebol".

Na Copa do Mundo de 1938, o Brasil percebeu, ou julgou perceber, que jogava um futebol diferente dos outros. E que esse estilo poderia ser melhor e mais eficiente que o dos outros. A seleção que foi bem na Copa, incluiu negros e brancos, e revelou à Europa o gênio de Leônidas da Silva. Perdeu para a favorita Itália por causa de um pênalti cometido por Domingos da Guia no atacante Piola, lance discutido anos a fio pela torcida.

Depois dessa bem-sucedida participação internacional, o Brasil começou a se preparar para sediar a primeira Copa do Mundo, o que aconteceria apenas em 1950. Ano que entraria para a história com a derrota na final para o Uruguai, por 2 a 1, o famoso "Maracanazo". O Brasil, que se preparava para ser o "melhor do mundo" (em tudo, e não apenas no futebol), acordou numa ressaca brutal, sentindo-se o pior dos povos da humanidade. Um povo com "complexo de vira-latas", na imortal expressão de Nelson Rodrigues. Um povo que não sabia para onde ir e expressou essa indefinição na desastrosa participação na Copa da Suécia em 1954, eliminado pela favorita Hungria, num jogo que terminou com o placar de 4 a 2 para os magiares e quebra-quebra generalizado.

A redenção viria em 1958, na Suécia, com a estupenda safra de jogadores como Pelé, Garrincha e Didi, além de uma boa organização da comissão técnica. O governo era de Juscelino Kubitschek e o otimismo do nacional-desenvolvimentismo daria frutos além da taça do mundo, como a bossa nova, o Cinema Novo e todo um ar de progresso, otimismo e modernidade. O futebol tanto expressava esse clima geral quanto o respirava. Enquanto isso, era instrumentalizado pelo poder, qualquer que fosse o governante de ocasião, JK, Jango ou Jânio Quadros.

Fato que se repetiria em épocas menos propícias, durante a ditadura militar, e, em particular, no período mais duro desta, o de Emílio Garrastazu Médici, tirano, porém um fanático sincero pelo esporte, que pôde saborear uma conquista como o tricampeonato no México com o time considerado por analistas imparciais como o mais perfeito de todos os tempos. O que mais se poderia esperar de uma equipe que tinha Pelé, Rivellino, Tostão, Jairzinho e Gérson? Era a seleção, ainda, o ponto de expressão privilegiado de todas as representações nacionais e, portanto, disputada por atores sociais de interesses divergentes. A ponto de a esquerda tornar obrigatório que se torcesse contra o "escrete", porque uma vitória seria instrumentalizada pelo regime. Mas como torcer contra esse time?

O livro acompanha a saga da seleção em outras Copas, dos vexames de 1974 e 1978, à derrota do time magnífico de 1982, passando pelos fracassos de 1986 e 1990 até chegar à vitória da pragmática seleção de Carlos Alberto Parreira em 1994, um time em tudo adaptado às exigências de um novo tempo desencantado. Observa que, com a globalização, a exportação de jogadores e formação de times "desnacionalizados", a seleção foi perdendo essa função de símbolo máximo da nacionalidade. "Ganhamos em 2002 e foi bom, mas nada para mudar o preço do dólar; perdemos em 2006, e ninguém caiu numa depressão geral."

No entanto, o livro vai até a Copa de 2002 e nela se detém. Por quê? "Porque me pareceu um momento muito significativo", diz Guterman. "Aquele gesto em que Cafu, comemorando a vitória, escreve na camisa "100% Jardim Irene", lembrando que tinha chegado até lá, mas não esquecia sua origem. Naquele mesmo ano um ex-torneiro mecânico chegava à Presidência da República, representando a esperança de um novo ciclo para o País."

O Futebol Explica o Brasil junta as duas pontas desse ciclo de cento e poucos anos. O esporte que chega como privilégio da elite e é apropriado pelas classes populares; o operário, dado a metáforas futebolísticas e que alcança o cargo mais alto da Nação. O que será daqui para a frente, para o futebol e o País? Quem sabe? O que se pode dizer é que o jogo está em aberto e um continuará a contar a história do outro, comentando-se mutuamente.

Serviço

O Futebol Explica O Brasil. De Marcos Guterman. Editora Contexto. 272 pág. R$ 39. Livraria Cultura - Bourbon Shopping Pompeia. Rua Turiassu, 2.100, 3868-5100. Dia 16/11, 18h30

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