A ilha Argélia

Efeito dominó que sacudiu o Norte da África não empolga argelinos: após dez anos de [br]violência e 150 mil mortos, eles vivem uma paz que não parecem querer pôr em risco

Carlos Granés, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2011 | 00h49

Poderá ocorrer na Argélia uma revolução semelhante à da Tunísia, Egito ou Líbia? Poderão ocorrer levantes que coloquem na corda bamba o governo, como na Síria ou no Iêmen? Não. Essa foi a resposta categórica que recebi das diferentes pessoas às quais fiz essas perguntas, há alguns dias, em Argel. Depois de dez anos de violência terrorista, de atentados a bomba, fanatismo e mais de 150 mil mortos, os argelinos parecem desfrutar de um período de tranquilidade e prosperidade que não querem colocar em risco. Embora tenha havido protestos e revoltas, e estudantes e médicos tenham feito greves, os inconformados não parecem dispostos a derrubar o presidente Abdelaziz Bouteflika. Os argelinos estão preocupados com o aumento do custo de vida, a corrupção e o desemprego e reivindicam abertura democrática e melhorias salariais, mas as manifestações convocadas pelo líder da oposição, Said Sidi, a única voz que pede explicitamente uma mudança de regime na Argélia, costumam reunir mais policiais antimotim do que manifestantes.

Para que outra revolução na Argélia, se já tivemos uma? Foi o que disse um argelino que trabalha para uma agência governamental, referindo-se às lutas contra a França, que deram a independência ao país em 1962. Na época, Bouteflika ganhou reconhecimento como membro da Frente de Libertação Nacional (FLN) e continua mantendo seu prestígio como herói da independência. "Gosto de Bouteflika", insistiu, "as pessoa gostam de Bouteflika; corruptos são seus subalternos." Para setores da população aferrados ao nacionalismo árabe que deu vida às campanhas independentistas nos anos 50 e 60, a Argélia já está livre. Ela se libertou da França e manteve sob controle os investimentos estrangeiros. Nem sequer há turistas dos quais dependa sua economia, como na Tunísia ou no Egito. Para esses setores, a liberdade significa liberdade dos povos, não tanto dos indivíduos, e por isso o que os preocupa é Washington, não seu próprio governo.

Por outro lado, os pró-ocidentais que querem se abrir para o mundo e contagiar-se com a modernidade europeia também temem que desconjuntar o governo reviva velhos traumas. Têm muito fresco na memória o horror desencadeado pelo extremismo islâmico e lembram que foi Bouteflika quem, há pouco tempo, apaziguou a Frente Islâmica de Salvação e desmantelou seus braços armados. Ao falar de liberdade, preocupam-se com a fragilidade da democracia argelina. Isso os impele a pedir maior abertura democrática, mas não a opor-se frontalmente aos defensores nacionalistas de Bouteflika. Ambos os setores, além de defender a emancipação da mulher, consideram que sua participação na sociedade é fundamental para seu progresso. Já os islâmicos radicais pensam de maneira diferente. E a simples ideia de voltar aos anos 90, quando as mulheres eram submetidas a todo tipo de pressão, apavora igualmente os dois grupos.

Uma professora de literatura hispano-americana relatou o horror que viveu na guerra civil. Andar pelas ruas implicava expor-se a uma infinidade de perigos. Ir à universidade também. Ela não sabia se seus alunos viam em seu vestuário ocidental e em suas ideias modernas o demônio que deveriam eliminar. Em muitas famílias, filhos cooptados pelos fundamentalistas assassinaram os próprios pais. O germe do islamismo radical se infiltrou em todos os âmbitos da população, produzindo forte rompimento familiar e social.

A violência e o medo sofridos no passado aparentemente apaziguaram os argelinos. Mas uma jovem de origem berbere lamentava que as mulheres voltassem a usar o véu, e principalmente que o fizessem mais por pressão social que por verdadeiro sentimento religioso. Antes, contava a professora universitária, no centro de Argel havia uma ou duas mesquitas, agora são numerosas. A presença do Islã é latente, e esse pode ser um dos elementos que freiam os impulsos revolucionários dos argelinos.

Fiz a mesma pergunta a todas as pessoas que encontrei em minha visita: no Ocidente, as revoltas do mundo árabe pegaram as pessoas de surpresa; aconteceu o mesmo com vocês? A resposta foi unânime. Ninguém imaginou, suspeitou ou previu que pudessem eclodir revoltas de semelhante envergadura nos países vizinhos. As revoluções tunisiana e egípcia foram uma surpresa tão grande para eles quanto para os europeus. Perguntei o mesmo a outra pessoa que, por motivo de trabalho, viveu no ano passado duas semanas por mês na Líbia. Nenhum dos seus amigos ou conhecidos líbios esperava uma coisa dessas. Significa que na Argélia também é possível que esteja se incubando uma força revolucionária que faça perigar o regime de Bouteflika?

Certas características do sistema argelino fazem pensar que não. A imprensa é livre e nela se debate seriamente o futuro do governo. As convocatórias de Said Sadi, além de atrair pouca gente, têm sido controladas pela polícia, e a influência das redes sociais tem sido menor que em outros países. Enquanto na Tunísia 34% da população tem acesso à internet, na Argélia apenas 14% está conectada, e os perfis dos jovens no Facebook não costumam ter mais de 60 contatos. Além disso, boa parte do setor laico, cosmopolita e democrata que poderia exigir reformas mais profundas se encontra no exterior. Foram mais numerosas as manifestações convocadas em fevereiro em Paris e Montreal do que as que ocorreram em Argel.

A tudo isso se soma a duração do mandato de Bouteflika. O presidente argelino subiu ao poder em 1999, e embora tenha modificado a Constituição para poder candidatar-se a um terceiro mandato, em 2009 não foi punido por seus eleitores. Ao contrário, ele se reelegeu com uma ampla maioria, apesar de a embaixada americana, segundo vazou no WikiLeaks, suspeitar de fraude. Essas irregularidades, contudo, não negam um fato evidente. Bouteflika tem apenas 12 anos de governo, muito para as democracias latino-americanas ou a americana, mas não para as europeias e muito menos para os sistemas políticos árabes. Ben Ali governou durante 23 anos, Mubarak quase 30 e Kadafi mais de 40. As eleições - fraudadas ou não - tiveram efeito cosmético, que impede os argelinos de ver Bouteflika como um déspota cuja cabeça deve rolar. Somente o tempo dirá se, apesar do trauma da guerra civil, da apatia política dos jovens e do respeito que Bouteflika ainda inspira, o efeito dominó que sacudiu o Norte da África também vá arrastar a Argélia. Por enquanto, o vendaval da história parece estar soprando em outras latitudes. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

CARLOS GRANÉS É ANTROPÓLOGO E AUTOR DE LA REVANCHA DE LA IMAGINACIÓN: ANTROPOLOGÍA DE LOS PROCESOS CREATIVOS: MARIO VARGAS LLOSA Y JOSÉ ALEJANDRO RESTREPO

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