A Ilha de Brocoió, na Baía de Guanabara, será aberta ao público

Local, que pertenceu ao empresário Octávio Guinle e foi comprado pelo governo em 1944, será reformado

Felipe Werneck, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

Comprada em 1944 pelo então prefeito Henrique Dodsworth, nomeado interventor no Distrito Federal durante o Estado Novo, a Ilha de Brocoió, na Baía de Guanabara, será aberta à visitação pública após uma reforma. A grande atração do lugar, além da paisagem natural, é o palacete de estilo normando construído na década de 1930 pelo empresário Octávio Guinle, proprietário anterior. O projeto é do francês Joseph Gire, o mesmo arquiteto do Hotel Copacabana Palace, na zona sul, inaugurado em 1923. Trata-se, oficialmente, da residência de veraneio do governador do Estado, mas Sérgio Cabral Filho (PMDB), eleito em 2006, nunca dormiu lá.

O mato está alto em trechos da ilha, de 200 mil metros quadrados, e os jardins planejados por Gire, descaracterizados. O casarão estava sem manutenção havia muito tempo. Instalações elétricas, telhado e pintura foram recuperados numa primeira fase de obras, iniciada há um ano, que custou R$ 755 mil. A previsão do governo é concluir a segunda etapa, estimada em R$ 2,6 milhões, até julho.

De acordo com o secretário de Estado da Casa Civil, Regis Fichtner, a visitação será gratuita. "Não tem sentido que um lugar tão importante fique entregue à ação do tempo e, muito menos, fechado, sem uso", disse. "Além da beleza arquitetônica, trata-se de uma joia de grande valor histórico. Por isso, tomamos a decisão de fazer essa reforma e, em seguida, abrir a ilha ao público."

Além do paisagismo dos jardins e da garagem de barcos, o mobiliário e o imenso órgão alemão do palacete serão restaurados, segundo o projeto. A ilha também deverá ganhar um heliponto. Dentro da casa, de quatro pavimentos e cinco quartos, mais dois de serviço, chamam a atenção os pisos de mármore português, os lustres art déco, os mosaicos árabes e o banheiro da suíte principal, com banheira e pias esculpidas em pedras únicas de mármore de Lioz amarelado. O estilo da casa é europeu, com telhas francesas e mansardas (janelas que saem do telhado), um contraste em meio à vegetação tropical - no térreo, há até uma lareira.

"É um Rio que o carioca não conhece. Um lugar bucólico, para lazer e descanso", disse o arquiteto Eduardo Valdetaro, que fiscaliza as obras, no caminho do casarão até a sede da administração e a estação de barcos, de onde se vê a Ilha de Paquetá (a 300 metros) e, ao fundo, o Dedo de Deus, na Serra dos Órgãos. Do outro lado da ilha, a vista é das montanhas do Rio, bem de longe, com a ponte Rio-Niterói na frente.

Brocoió tem quatro funcionários. Roberto Pires Ferreira, de 69 anos, começou a trabalhar lá em 1958. Conviveu com muitos governadores. "O tempo do Carlos Lacerda (1960-65) foi muito bom. O Brizola (Leonel Brizola, março de 1983-março de 1987 e março de 1991-abril de 1994) era espetacular. Já o Moreira Franco (março de 1987-março de 1991) nem dava bom dia", contou.

A família de Anthony Garotinho foi a última a frequentar o local, nas administrações dele e da mulher, Rosinha Matheus, antecessora de Cabral. Em dezembro de 2002, uma empresa de telefonia alugou a ilha e levou 3 mil convidados para uma festa que terminou com show de Gilberto Gil. Dois anos depois, ladrões invadiram o palacete e roubaram quadros antigos. "Dá pena ver isso aqui fechado. A gente abre as janelas todos os dias para sair o cheiro de mofo", disse Rubem Antônio Rosa, de 64 anos, 40 de Brocoió.

LENDAS

Em 1944, a prefeitura do antigo Distrito Federal pagou seis milhões de cruzeiros pela ilha. Dezesseis anos depois, com a mudança da capital para Brasília, ela passou a ser propriedade do então Estado da Guanabara. Foi tombada em 1965.

Uma das lendas sobre a ilha é a de que teria funcionado como uma espécie de presídio de índios que se rebelavam contra chefes de tribos no litoral. Outra é a de que teria servido de quarentena para escravos.

O almirante Max Justo Guedes, de 82 anos, começou a frequentar o lugar aos 13 anos, quando o proprietário ainda era Octávio Guinle, que lá recebeu gente como o ator Errol Flynn e o presidente Getúlio Vargas. "Fizemos amizade com os guardas que tomavam conta e acampamos diversas vezes. Era fantástico, um sossego", disse. "A baía era limpíssima." Bem diferente de hoje. Procurado, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) informou que não faz coletas na região para medir a qualidade da água.

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