A ilusão da autossuficiência russa

Europeus e norte-americanos impuseram sanções aos russos pela ocupação da Crimeia e apoio aos rebeldes pró-Rússia na Ucrânia oriental. Alguns poderiam considerar natural que diante de tal situação qualquer país buscasse alternativa para evitar o isolamento e encontrar uma alternativa diplomática para desfazer as tensões. Mas não a Rússia de Putin, que levará anos para perceber que seu peso relativo no jogo das relações internacionais é bem menor do aquele que o Império Czarista desempenhou desde o século XVIII até a Revolução Russa e aquele que a União Soviética ocupou em boa parte do século XX. Não fosse uma potência nuclear e uma relevante fornecedora de matérias-primas fósseis para a demandante energia mundial, a Rússia já estaria relegada à irrelevância. 

*Christian Lohbauer, O Estado de S. Paulo

12 Agosto 2014 | 13h03

Talvez o comando político que rodeia Putin ainda compreenda o mundo sob os olhos do britânico Halford Mackinder, o pai da geopolítica moderna. Ao desenvolver o conceito de “Heartland”, Mackinder associou a região terrestre da Eurásia e seus vastos recursos naturais desde as grandes florestas das estepes, ricos campos petrolíferos e terras férteis a oeste do mar Cáspio como a “área pivot” da história. Maior massa continental do planeta, a região é de difícil controle e nunca seria dominada por qualquer das potencias navais no decorrer da história. Controlada por russos e soviéticos, lhes daria condição de expandir para os mares quentes e dominar o mundo e os rumos da política mundial.

A história contemporânea, desde a derrocada soviética com Gorbachev à instauração da cleptocracia do período de Boris Yeltsin, deixou as primeiras marcas de realismo na megalomania russa. No entanto, Putin não se convenceu. Depois da derrubada do voo MH17 por rebeldes pró-Rússia, Putin tem demonstrado que valoriza mais sua própria compreensão do destino histórico russo do que a reputação do país e seu desenvolvimento econômico. Em seu desafio à precária estrutura da ordem internacional pós-Guerra Fria, Putin coloca a Rússia em posição sem alinhamentos fixos. Uma espécie de modelo de relações pragmáticas que busca uma anacrônica garantia de soberania e autossuficiência que não combina com o panorama atual da globalização e interdependência da economia mundial.

Um orgulho nostálgico marca as recentes decisões demagógicas de substituir produtos e serviços importados do Ocidente por produtos nacionais. Uma versão pós-moderna de substituição de importações em um ambiente de baixa competitividade e nenhuma capacidade ociosa. O anúncio de banir ou reduzir a importação de produtos agrícolas de países que impuseram sanções a Rússia é outra medida de aparente autonomia que resultará em desordem econômica. 

Em um primeiro momento, exportadores brasileiros de carne de aves estão tentando se aproveitar da oportunidade de ocupar o espaço de mercado de europeus e norte-americanos. Mas o histórico de fornecimento de proteína animal do Brasil à Rússia é repleto de capítulos obscuros, com sistemáticas negociações de agenda aparentemente sanitária, mas sabidamente de conteúdo pouco ortodoxo. Quem acompanha o comércio de proteína animal do Brasil com a Rússia nos últimos anos verifica certa constância na exportação de carne bovina e suína, mas queda significativa na exportação de carne de aves. Justamente um projeto nacional de autossuficiência de carne de aves iniciado em meados dos anos 2000 fez reduzir a exportação da carne brasileira de cerca de 150 mil toneladas a menos da metade disso no ano passado. 

Acreditar que o alinhamento dos países dos BRICS pode ter levado a tal oportunidade de incrementar o comércio nesse setor é também acreditar em fantasias. A Rússia está adotando medida conjuntural e aumentando o número de inimizades. Em um primeiro momento pode parecer interessante para empresas brasileiras ocuparem o espaço, mas cautela deve ser a palavra-chave, porque não é possível pensar estrategicamente uma relação comercial movida a impulsos nacionalistas e conjunturais.

Desde que voltou à presidência em 2012, Putin enfrenta situação econômica em deterioração. Após um período de crescimento de 5% ao ano em função dos bons preços do petróleo e do gás, Putin terá dificuldades de cumprir promessas de melhorias sociais com crescimento previsto de 0,2% em 2014. As reservas acima de US$ 170 bilhões estão sendo consumidas para manter a estabilidade do rublo e auxiliar na crescente dívida pública incrementada pelo conflito fratricida com a Ucrânia. 

O projeto de autossuficiência terá um custo pesado para o povo russo e não há como trazer melhorias ao seu desenvolvimento. Apenas aumentar sua histórica frustração.

* Christian Lohbauer é doutor em Ciência Política pela USP e membro do GACINT/USP

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