A inocência falsa dos sedutores

A História de Muitos Amores explora as habilidades técnicas da Fraternal Cia.

Mariângela Alves de Lima, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

A Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes vive há 15 anos em uma estabilidade de fazer inveja. Tanto quanto os outros grupos de teatro da cidade, a Fraternal tem de suar a camisa para produzir espetáculos, mas, até hoje, não teve de se preocupar com a seleção de peças. Desde o início contou com o privilégio do dramaturgo-residente, função desempenhada por Luiz Alberto de Abreu, ao municiar o grupo com algumas das melhores comédias do nosso repertório de textos teatrais.

Por algum motivo, mantendo o mesmo diretor e um núcleo de intérpretes veteranos, o grupo encenou este ano uma peça de outro autor, que encerra a temporada amanhã. A História de Muitos Amores, de Domingos de Oliveira, tem como única ligação com os temas e estilos apresentados até agora o fato de ter sido escrita por um brasileiro.

Habituada a um tipo de comicidade vigorosa, extraída da observação crítica das máscaras sociais ou, inversamente, da admiração pelo engenho da narrativa popular, as representações do grupo exploraram ao longo desses anos variações estilísticas da tradição oral e escrita. Ensaiando outra vertente, a encenação de uma comédia romântica parece ser uma espécie de remanso, convidando à exibição das habilidades técnicas da direção e do elenco. Não há nada muito complicado nesta peça de amores contrariados e intrigas quase inocentes, sem vilanias ou paixões desmesuradas.

Jogo de combinações reduzidas como as parelhas mobilizadas pelo teatro de bulevar francês da primeira metade do século 20, a trama imaginada por Domingos de Oliveira é ainda mais carente de imaginação do que as peças europeias. São acontecimentos alinhavados em sequência temporal retilínea, armados e desarmados sem motivo convincente, apenas porque as personagens que conduzem o jogo mudam de ideia, sentem de outro jeito ou são caprichosas. Tampouco a brincadeira é recheada com frases espirituosas e subentendidos, expedientes que poderiam compensar com ornamentos verbais ou malícia a simplicidade dos truques para iludir os amorosos.

Contudo, sobre essa matéria esgarçada, a Fraternal faz um espetáculo cuja virtude primeira é a de abrir alas para a atuação. Depois de muitos anos aperfeiçoando a técnica e multiplicação os efeitos dos tipos cômicos, o grupo sinalizava a intenção de experimentar como novidade a mescla entre a personagem dramática e o lirismo suavemente risonho. Borandá, encenação de 2003 construída a partir de relatos de migrantes, sugeria o desejo de trilhar outras vertentes. Por enquanto, talvez porque não tenha compromisso autoral, este espetáculo se apoia em uma sugestão do texto que convida à exploração de outro tipo de comicidade. É a graça sofisticada do Pierrô, tão diferente da graça dos nossos palhaços arlequinais, que a direção de Ednaldo Freire estiliza pela primeira vez na trajetória do grupo.

A referência circense em que o espetáculo se inspira não é a dos nossos circos com seus palhaços ágeis, barulhentos, coloridos e insensatos. Em vez disso, a fonte de inspiração é a pantomima que, a partir das figuras clássicas do picadeiro, poetizou a expressão corporal dos intérpretes e atribuiu ao silêncio o mesmo peso significativo que tem na música. A tristeza do amor não correspondido, a exasperação dos ciumentos, a melancolia das noites solitárias estão impressas com minúcia e delicadeza na postura das personagens, nos gestos, nas marcações de aproximação ou recuo.

Aiman Hammoud, interpretando o dono do circo, é a própria melancolia abissal e lunar dos que nunca ganham o jogo. Sempre com voz suave, o meio sorriso dos tímidos e uma entonação expectante, é a figura emblemática do drama amoroso. O acrobata de Edgar Campos - tipo coquete e burrinho - faz as vezes da Colombina, pivô das batalhas amorosas desses enredos. É um intérprete de voz grave e forte e tira excelente partido desse contraste entre a voz máscula e a falsa inocência dos sedutores. O palhaço Pimpão e a intrusa Ângela, representados por Fernando Paz e Mirtes Nogueira, são duas composições excepcionais em todos os sentidos. Fora do comum porque atravessam os estereótipos do circo e da mímica para criar um híbrido que não se parece com nenhuma dessas artes porque não é inteiramente corporal. Há o sopro de alguma coisa mais etérea na comunhão entre os dois palhaços, mas são as reticências, em vez das frases, que conduzem a uma interpretação alegórica. E são também desempenhos extraordinários porque, sem atrapalhar o andamento da peça, as cenas dos dois intérpretes se destacam do espetáculo como episódios de grande beleza e candura, impossível nos amores reais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.