A intolerância não passará

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Fabrício H. Chagas Bastos*, O Estado de S. Paulo

17 Junho 2015 | 22h00

Os últimos tempos têm sido interessantemente estranhos. São louvados os avanços econômicos que retiraram da condição de miseráveis (e excluídos) milhares de brasileiros, as uniões homoafetivas passaram a ser reconhecidas como tema do dia a dia e o debate sobre drogas e armas leves ganhou corpo (deixando de ser maniqueísta), e ao mesmo tempo, projetos para reduzir a maioridade penal são aclamados, uma onda conservadora com kits anti-qualquer-coisa se levanta, a intolerância religiosa avança (ou faz retroceder, como no tempo das Cruzadas!).

Pouco antes da Copa do Mundo de 2014, havia um sentimento gelatinoso e frio, de tensão e desânimo que grassava o País. Hoje o desânimo de outrora deu lugar ao acirramento de posições que há muito se moviam silenciosas no caldeirão da sociedade: preconceito, intolerância e agressividade. Aos olhos intolerantes, do dia para a noite a sociedade brasileira passou a ser composta por uma maioria LGBT (a ser demonizada e combatida), todos os menores pobres são infratores e potenciais delinquentes (e devem ser enjaulados desde cedo) e qualquer manifestação que não se enquadre em uma moldura judaico-cristã deve ser diminuída.

Por lentes econômicas se poderia dizer que o aumento do suporte aos congressistas conservadores (maioria na última legislatura, desde 1964) vem justamente de uma relação direta entre sair da pobreza e a garantia do novo status. Em outras palavras, os mais pobres e a classe média votariam de maneira conservadora para não retrocederem na pirâmide social e manterem seus ganhos.

Permitam-me apelar à Antropologia e à Sociologia para ampliar o argumento: vivemos tempos em que os mitos fundacionais brasileiros, da miscigenação positiva e da cordialidade, são profundamente questionados. Jessé de Souza, em seu A ralé brasileira, coloca-se frontalmente contra a ausência de racionalidade do brasileiro (o pensar com o coração ou cordialidade) e o advento de uma miscigenação que aplaca todo tipo de preconceito racial em nome da boa convivência. O resultado dessa mistura, como pondera Jessé, é a fuga dos conflitos sociais (motores do amadurecimento e avanço das instituições) e o abandono da sociedade a uma tutela oficial, pelo Congresso, Judiciário e Executivo - a velha máxima dos 'donos do poder'.

Geraldo Miniuci publicou neste Estadão ontem, 16 de junho, um belo texto sobre a modelo transexual Viviany Beloni e sua performance na Parada Gay como o Cristo pregado à cruz. Miniuci sintetiza a imagem de "injustiça e sofrimento vividos por aqueles que a sociedade heteronormativa e cristã considera 'invertidos". O que dizer então da menina de 11 anos que tomou uma pedrada ao sair de uma roça de candomblé no Rio de Janeiro?

As religiões de matriz africana há muito são hostilizadas ostensivamente, seja por sua gênese negra e pobre, seja por desconhecimento de sua filosofia, ou mesmo por uma disputa de interesses declarados (votos ou vantagens econômicas) em certas regiões do País. O fato não é defender tal ou qual manifestação religiosa, mas sim (e o faço de maneira intransigente) de garantir a liberdade de toda e qualquer prática religiosa como princípio fundamental de existência. É irônico não lembrar que foram justamente pedras que mataram o primeiro mártir cristão, Estevão -condenado ao apedrejamento por blasfêmia.

Lembro-me de em uma aula na USP um professor delicada e preconceituosamente listar o que seriam características de um praticante de uma religião afro-brasileira: negro, pobre, com baixa escolaridade, e que muito provavelmente não se sentaria em um banco de uma universidade como aquela. Qual não foi a surpresa quando me viu desafrouxar a gravata, retirar a guia que uso dentro da camisa e perguntar em tom ameno em meio aos colegas "me parece que a sua descrição é preconceituosa e equivocada, não?".

Vivemos tempos de amadurecimento e avanço no País, apesar das duras e tacanhas posições assumidas por muitos. Até ontem o preconceito era silenciado, como se não existisse. Hoje crescem largamente (para o bem geral) coletivos sobre a consciência e resistência negras, feminismo, direito carcerário, moradia decente, que trazem ao centro do debate aqueles que sofrem diariamente com a violência e o menosprezo.

A intolerância e o conservadorismo são as faces de uma reação ante uma ampliação da consciência de mulheres e homens que nunca tiveram chances de pensar e se sentirem sujeitos de suas próprias vidas. Crenças e valores podem, tal qual palavras, exterminar ou salvar legiões.

Os Direitos Humanos até há pouco eram bizarramente confundidos com o 'direito para os que violaram a lei', mas à custa de pedradas, performances chocantes, educação e muita luta, têm penetrado na sociedade brasileira de modo a fazê-la se mover de maneira independente da oficialidade. Finalmente começamos a lutar pelo direito de sermos humanos, no mais amplo sentido da palavra, e daqui em diante a intolerância não passará.

* Fabrício H. Chagas Bastos, doutor pela Universidade de São Paulo. É umbandista e pesquisador do Australian National Centre for Latin American Studies da Australian National University. E-mail: fchagasbastos@usp.br

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