A lenda de Urashima Taro

Parábola sobre a inquietação do ser humano e o desejo de retornar animam dekasseguis

Reynaldo Gollo,

29 de dezembro de 2007 | 21h30

"Há muitos e muitos anos, um pescador chamado Urashima Taro salvou uma tartaruga que era maltratada por jovens na praia e a devolveu ao mar. Dias depois, enquanto pescava, aquela tartaruga o abordou e, agradecida, levou o pescador para um reino mágico no fundo do mar. No intervalo que ele achou serem dias, Urashima foi muito feliz, vivendo emoções inacreditáveis. Mas veio a saudade e Urashima quis voltar à terra. Recebeu de presente de uma princesa do mar uma arca, que não deveria ser aberta se ele quisesse voltar ao reino. Quando chegou à sua vila, viu que, na verdade, havia se passado muito tempo. Sem encontrar nenhum amigo ou parente vivo, abriu a arca proibida, de onde saiu uma névoa que o fez envelhecer. Então, ele se sentou na areia, e chorou" Uma das mais impressionantes lendas do folclore japonês, a história de Urashima Taro é uma parábola sobre a inquietação do ser humano. Sobre uma pessoa que, mesmo conseguindo viver em uma terra distante, sente saudades de suas raízes. Nossos dekasseguis – são atualmente 312 mil, segundo o departamento de imigração japonês – experimentam no cotidiano essa fábula milenar. E boa parte acaba, depois de certo tempo, decidindo trocar o salário em ienes pelos reais no holerite brasileiro.  Foi o caso do sansei Sérgio Sumio Oyama, hoje com 37 anos. Em 1992, recém-saído da faculdade de Tecnologia da Informação, ele resolveu partir para a terra de seus avós. Lá, aprendeu, ganhou dinheiro, conheceu novos horizontes e amadureceu. Mas o chamado das raízes foi mais forte. Acabou voltando para o Brasil.  "Era a onda dos dekasseguis", lembra Oyama. "Muitos outros descendentes estavam indo para lá tentar a vida."  Naquela época, o Japão ainda simbolizava o Eldorado para os brasileiros – de lá para cá, a remuneração dos dekasseguis só fez cair, mudando um pouco esse conceito. De acordo com estimativas do Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), sociedade civil sem fins lucrativos, o salário passou de cerca de 2 mil ienes (R$ 30,99) por hora, na década de 80, para os atuais 1.100 ienes (R$ 17), em média. Oyama procurou uma agência de empregos. Informou-se sobre as condições de vida e trabalho no Japão, e partiu. Sua primeira sensação ao chegar foi conflitante. Acostumado a conviver com descendentes de outros povos – italianos, espanhóis, etc. –, pela primeira vez estava em um lugar em que todos se pareciam com ele. Ao mesmo tempo, eram muito diferentes. "Os costumes, os modos, os lugares... Sempre tive interesse pela cultura japonesa, mas, mesmo assim, é estranho."  Por outro lado, como já falava um pouco de japonês, aprendido de maneira autodidata, o choque cultural não foi tão forte quanto costuma ser para outros dekasseguis (tanto é que conhecer um pouco da língua está entre as primeiras recomendações dos especialistas para quem quer trabalhar fora). "Ouvia muita música e assistia a filmes japoneses."  Mas teve de se adaptar com alguns costumes. Para seu espanto, por exemplo, descobriu que os japoneses comem muito pouco. "Foi difícil para mim, que sempre fui bom de garfo." Sem prazo para voltar, Oyama chegou para trabalhar em uma empresa que fornecia peças para a Toyota, na cidade homônima da empresa, na província de Aichi, região central. Ficou seis meses. Depois, passou mais dois anos e meio entre as cidades de Fujioka e Maebashi (ambas em Gunma).  Curiosamente, foi justamente no Japão que ele aprendeu que nem sempre as tradições japonesas devem ser seguidas a ferro e fogo. "Percebi que muito do que meus pais e avós falavam, de não questionar ordens e superiores, não funcionava bem para se estabelecer nos empregos e até em outras situações de vida", conta o sansei. "Não existe a infalibilidade dos mais velhos e dos superiores." Laços Doze anos depois de voltar para o Brasil, ele conta que a experiência foi uma grande oportunidade de aprendizado e amadurecimento. Fora isso, diz que estreitou sua relação com a cultura japonesa – tanto é que pratica Aikidô (arte marcial voltada para a autodefesa). Hoje, trabalha na Caixa Econômica Federal. Casado, espera o melhor momento de ter filhos. Em relação à terra de seus ancestrais, mais sentimentos dúbios: "Sinto saudades de lá. Mas quero viver aqui." Dica: além do Ciate (http://www.ciate.org.br/), outra boa fonte de informação é o Portal Dekassegui, ligado ao Sebrae (http://www.portaldekassegui.com/).

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