A lição que veio da Apple

Adorei o Surface. E isto é verdade por mais que eu saiba muito pouco a respeito dele. Num evento para a imprensa envolto em sigilo realizado na segunda-feira passada em Los Angeles, pude passar apenas 90 segundos com o novo tablet da Microsoft. E até este breve período foi circunscrito. Pude apenas mexer no aparelho desligado. Os representantes da Microsoft estavam contentes em mostrar o tablet, mas não me deixaram usá-lo.

É REPÓRTER DA REVISTA SLATE, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2012 | 03h09

Além disso, muitos detalhes a respeito dele continuam mergulhados em mistério. A Microsoft não revelou seu preço; diz apenas que o custo será "comparável" ao de outros tablets. Não sabemos quando ele chegará ao mercado (a empresa indica algum momento ainda este ano).

Não sabemos se os desenvolvedores vão conseguir criar aplicativos para ele, nem se a qualidade de produção do tablet vai se manter alta quando a Microsoft começar a fabricá-lo em grandes quantidades. Também não sabemos se ele vai chegar cheio de defeitos e bugs - como ocorreu com outros concorrentes que se dispuseram a "matar o iPad".

Ainda assim, apesar de tantas incertezas, fiquei encantado com o aparelho. Não pelo fato de o Surface ser fantástico, mas por representar uma nova e potencialmente poderosa força na indústria da tecnologia. Pela primeira vez na sua história, a Microsoft está tratando o hardware dos PCs com a mesma seriedade dedicada ao software. A gigante do software está se aproximando de uma máxima que o arquirrival Steve Jobs sempre considerou importantíssima - a ideia de que as melhores tecnologias nascem da profunda integração entre código e fabricação, e que nenhuma empresa pode se dar o luxo de se concentrar em apenas um dos lados desta equação.

Ainda não se sabe se o novo tablet será uma ameaça de fato ao iPad. É provável que não, ao menos no início, principalmente levando-se em conta a imensa vantagem da Apple neste mercado. Mas todos que desejam uma indústria vibrante dos PCs deveriam aplaudir a jogada da Microsoft.

Durante os últimos dois anos, a empresa tem trabalhado em fazer com que sua próxima versão do Windows funcione bem nos tablets com telas touchscreen. Os resultados podem ter sido bons até demais - tão bons, na verdade, que cheguei a me preocupar com a possibilidade de o Windows 8 ser um pesadelo nos laptops e desktops. Mas, depois de investir na criação de uma boa interface para tablets, a Microsoft corria o risco de perder a batalha na arena do hardware. Muitas de suas parceiras tradicionais no ramo dos PCs - Samsung, Asus, Dell e HP - já tentaram enfrentar a Apple com tablets lançados às pressas. A Microsoft teria sido tola se confiasse nesta turma esperando dela a criação de um tablet que fizesse jus ao novo Windows. Com o Surface, a empresa está tomando seu futuro nas próprias mãos.

Mas já não vimos este filme antes? Lembram-se do Zune? Por que agora as coisas vão ser diferentes? Porque o Zune foi um produto tardio e pouco inspirado que não tentou trilhar um caminho diferente do da Apple, ao contrário do Surface.

O tablet não é chamativo - à primeira vista, não é tão bonito quanto o iPad -, mas é funcional. Se funcionar bem, o teclado - que manuseei com calma, embora não tenha podido usá-lo para digitar - será a grande atração do Surface.

Muitas pessoas se frustram com o iPad por causa das dificuldades na hora de digitar. Elas querem usá-lo como um desktop completo, mas se sentem sufocadas pela forma de interação com o conteúdo exibido. Há muitos teclados de qualidade criados por terceiros para o iPad, mas nenhum deles é tão fino e atraente quanto o da Microsoft. Se o Surface for vendido com o teclado, ele pode se tornar um grande sucesso.

Mas é um grande "Se". Sob certos aspectos, contudo, o sucesso imediato do Surface não é o mais importante. Acho que o mais interessante é a mensagem que ele transmite sobre a Microsoft. Enquanto uma série de executivos subiam ao palco para descrever o tablet, fiquei impressionado com a complexidade dos processos envolvidos na produção do Surface. Descreveram o desenvolvimento de toneladas de protótipos para aperfeiçoar cada detalhe do tablet.

Falaram em um "sistema de infusão de metal líquido" para criar a estrutura interna. A empresa usou uma "câmara antieco" para analisar o ruído que o tablet faz quando o fechamos. Queriam um som que evocasse qualidade - como a porta de um carro de luxo europeu ao se fechar, ou o som do fecho de joias finas.

Até hoje, apenas uma outra empresa no universo da tecnologia a comentava tão obsessivamente o processo de fabricação de seus objetos físicos. Esta era a empresa de Steve Jobs, não a de Steve Ballmer.

Isto muda com o Surface. Finalmente, a indústria dos PCs tem uma concorrência de verdade na área do hardware. E, independentemente do sucesso ou fracasso do Surface, a Microsoft finalmente entrou no jogo.

/ TRADUÇÃO POR AUGUSTO CALIL

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