A língua mais cara do mundo

Bonita ela não é. Mas esta língua está segurada em US$ 15 milhões. O dono dela é Gennaro Pelliccia, provador de café de uma rede inglesa. Conheça outras línguas e narizes valiosos

Olívia Fraga ,

29 Julho 2010 | 10h01

O NEGÓCIO DELE É CAFÉ

 

 

Ele tem 35 anos e a língua mais cara do mundo, segurada em US$ 15,5 milhões. Mas será que vale mesmo tudo isso? "É dinheiro demais", admite Gennaro Pelliccia, provador de cafés e criador de blends da rede de cafeterias Costa Coffee, na Inglaterra. Napolitano criado em Londres, ele garante que sua "língua é comum", em tamanho e qualidades. E conta que os diretores da Costa decidiram colocá-la no seguro em dezembro de 2008, quando uma pesquisa de mercado mostrou que sete em cada dez ingleses preferiam o cappuccino da Costa, desenvolvido por ele. Ser dono de uma língua assim não é fácil. Nos períodos de prova, a língua manda em sua vida e determina sua dieta. Menta, doces e comida indiana são vetados. "Não posso comer pimentas nem curry, sofro com isso porque a comida indiana é a melhor que há em Londres", lamenta. Mas o mais surpreendente é que nesses períodos ele é proibido de tomar "café" após as refeições porque a bebida "confunde" as papilas gustativas. Gennaro gosta de fazer as provas de manhã, quando o paladar está mais limpo - degusta cem doses de café até a hora do almoço, servidas em colher de prata, com temperatura de 50°C a 55°C. Se está estressado, não prova. "O estresse muda a percepção", explica.

 

 

 

 

 

 

 

 

LOUCO POR UM SOCO

 

 

"Meu sonho é levar um soco no nariz", diz sem rodeios o holandês Ilja Gort, produtor dos vinhos La Tulipe e dono do Château La Garde, em Bordeaux. Explica-se: seu nariz está avaliado em 5 milhões, valor fixado pelo Lloyd"s no ano passado, quando o produtor resolveu proteger seu patrimônio. "É especialmente importante ter um nariz como o meu quando se faz o assemblage e também para identificar contaminações. Deus nos livre delas." Ele conta que chegou gabaritado à seguradora, exibindo a avaliação médica, assinada por um grande otorrino holandês. "Numa escala quantitativa de detecção de aromas que vai de 0 a 100, obtive 94. A média da população é de 63", gaba-se. O teste que culminou no resultado consistia em cheirar uma dezena de potes, identificar odores e adivinhar proporções nas amostras. "O contrato é engraçado: não posso esquiar, jogar rúgbi, fumar e nem engravidar - essa é fácil, o Lloyd"s pode ficar tranquilo", diz. Gort produz tintos, brancos e rosés: em 2003, foi eleito o melhor de Bordeaux no International Wine Challenge, em Londres.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LÍNGUA SEMPRE GELADA

 

 

 

Como provador oficial da Dreyer"s Grand Ice Cream, braço da Nestlé nos Estados Unidos, o químico americano John Harrison passa o dia experimentando sorvetes. E cabe a ele aprovar a receita final. Por dia, toma pelo menos 60 tipos. Ele conta que começa pelo de creme, o mais "neutro", e termina com os potentes, quase sempre de chocolate. Antes de colocar na boca, mistura bem para liberar os aromas. A cada colherada (usa uma colher de ouro para evitar retrogosto), deixa o gelado percorrer a superfície de sua língua por inteiro, acionando as papilas gustativas. A busca? O equilíbrio entre o creme fresco, adoçantes e sabores naturais dos sorvetes da marca californiana para a qual trabalha. Quarta geração de uma família de sorveteiros, Harrison, 65 anos, é provador da Dreyer"s há três décadas. Em 1985, teve sua língua segurada em US$ 1 milhão. Por conta disso, precisou redobrar os cuidados com sua ferramenta de trabalho. Durante a semana, evita comidas picantes, alho, cebola, bebidas quentes e frias, álcool e cigarro. Mas já na sexta à noite, abusa: encara feliz algumas fatias de pizza de pepperoni.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BOM DE QUEIJO

 

 

Os queijos artesanais da Wyke Farms, em Somerset, no oeste da Inglaterra, têm fama de ser verdadeiras preciosidades e dizem que a reputação se deve ao trabalho de Nigel Pooley. Ele é o "nariz" da empresa. Sua rotina de trabalho consiste em aproximar o queijo do nariz e tentar identificar nele qualquer sinal de deterioração. Aprovado, o queijo passa por outro teste que depende do paladar do técnico: a degustação. Há alguns meses, com medo de perder um olfato tão sensível e bem treinado, a empresa resolveu colocar o nariz do técnico no seguro. Foi o primeiro caso de "nariz de queijo" segurado no Lloyd"s. O valor da apólice: £ 5 milhões. "Por ano, passam pelo meu olfato 12 mil toneladas de queijos elaborados pela Wyke Farms", conta Pooley, também responsável por avaliar o leite usado pela empresa. Ele acredita que o que lhe valeu emprego na Wyke foi um ato "heroico" na década de 80: trabalhando para outro laticínio, durante uma inspeção, foi capaz de detectar uma contaminação séria em milhares de litros de leite.

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