Guilherme Conte/AE
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A Macondo vinícola de don Pablo

No Aim Karim, espraiado em um vale a 2.100 m de altitude, os vinhos nasceram do sonho de um teimoso apaixonado

Guilherme Conte - VILLA DE LEYVA, COLÔMBIA,

18 Janeiro 2012 | 19h48

Quando o capitão Antonio Ricaurte se deu conta da dimensão do cerco espanhol à fortificação que defendia, teve um daqueles arroubos de coragem e nobreza que transformam homens em mitos. Mandou que todos os demais fossem se refugiar em outra construção e esperou as tropas reais sozinho no paiol. No silêncio da noite, quando os soldados espanhóis chegaram, ele ateou fogo à munição. Esse episódio, a Batalha de San Mateo, aconteceu em 25 de março de 1814 e foi fundamental para a independência colombiana.

A casa em que Ricaurte nasceu está lá, como um desses modestos museus com medalhas e certidões de batismo que tanto se veem pela América Latina, na acolhedora Villa de Leyva, um pequeno tesouro colonial colombiano. Suas ruas de grandes pedras e o casario caiado, com algo de tácita mineirice andina, parecem guardar ainda por trás das portas antigas conspirações, inconfidências e confabulações.

Mas os mistérios ali têm raízes mais antigas. A vila foi construída no sopé de uma impressionante cadeia de montanhas. Todo esse pedaço, no departamento do Boyacá, era território dos índios muiscas. Numa das montanhas, de um verde imenso e silencioso, fica a laguna de Iguaque, onde moram as "névoas eternas" e, para os muiscas, nasceu o mundo. Das águas, límpidas e azuis, saiu a deusa Bachué, trazendo um menino pelas mãos. Quando ele se fez homem, casaram-se e deles descendem os habitantes do planeta.

Ainda que em Leyva o viajante se acostume à natureza pitoresca de suas atrações - que incluem uma fazenda de avestruzes, o fóssil de um dinossauro, um observatório astronômico indígena, um convento de dominicanos recoletos e um passeio pelo deserto (sim, há um deserto) -, é com surpresa que se recebe o conselho de um morador: "Você tem de visitar o vinhedo". Um vinhedo? Na Colômbia?

É claro que as condições geográficas e climáticas foram levadas em conta na escolha do local do vinhedo. Mas há certo charme em ter sido Villa de Leyva justamente o lugar escolhido para o empreendimento que o engenheiro e ex-negociante de café Pablo Toro chamava de seu "quixotismo". Em 1990, ele comprou uma finca de 50 hectares e plantou o vinhedo Aim Karim.

O nome vem de um povoado próximo a Jerusalém do qual Pablo se enamorou numa viagem ao Oriente Médio. Pablo achou a paisagem de Villa de Leyva muito parecida. Bons auspícios bíblicos, certamente, para quem se dispôs a fazer vinho em um país tropical, a 2.100 metros de altitude. E assim nasceu o valente vinho feito ali: o Marqués de Villa de Leyva.

Quando se caminha pelo Aim Karim, experimenta-se uma sensação paradoxal: ao mesmo tempo em que há certa estranheza em ver a geometria colorida de um vinhedo em um cenário tão improvável, tudo aquilo parece fazer um sentido muito óbvio. Por que não, ora bolas, fazer vinhos? Uma pena que d. Pablo não esteja mais aqui para acompanhar a visita - ele morreu em 2009. Dizem que era um incorrigível apaixonado por beber e fazer vinhos, além de dono de um passaporte carimbadíssimo e uma boa conversa. Em uma entrevista, ao ser questionado sobre o casamento perfeito, respondeu: "Um papaya com um Sauvignon Blanc".

A vinícola tem uma visita guiada, um tanto fajuta. Mas há um barzinho agradável onde se pode provar os vinhos, comer queijos e frios e comprar as garrafas de vinho - algo que eu nunca imaginei trazer de volta na mala quando parti para a Colômbia. Garrafas de uma Macondo de carne, osso, pedra e cal.

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