A megamanifestação que instituiu o 'dia do basta'

O Brasil assistiu no último domingo um inesquecível exercício de cidadania e democracia, onde milhões de brasileiros foram às ruas para protestar, em defesa do Brasil e contra maus governantes e políticos que se encontram incrustados no poder

José Matias-Pereira *, Especial para O Estado de S. Paulo

14 Março 2016 | 20h46

A difícil situação política da presidente Dilma Rousseff, do ex-presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores chegou ao seu ponto mais crítico neste último domingo, quando milhões de pessoas foram para as ruas, na maior megamanifestação já feita no País, realizada em mais de três centenas de cidades (grandes e médias), em todos os estados e no Distrito Federal, para repudiar a permanência dos atuais detentores no poder e exigir mudanças na gestão do Brasil, e mais ética na política. É relevante destacar, segundo os dados da Polícia Militar, que cerca de 3,6 milhões de pessoas saíram às ruas do País. Para os organizadores dos protestos, esse número foi de 6,8 milhões de pessoas. Recorde-se que, o maior número de participantes havia sido registrado no protesto de 15 de março de 2015, quando a PM contabilizou 2,4 milhões, e os organizadores 3 milhões. Somente na capital paulista a Polícia Militar estimou que cerca de 1,4 milhão de pessoas estiveram no ato de protesto na Avenida Paulista. Para os organizadores estiveram lá cerca de 2,5 milhões de pessoas. Considerando as consequências dos efeitos políticos que o ato provocou na população e nas instituições, aos quais se agregarão inúmeros outros que dele ainda advirão, torna-se necessário fazer uma análise das motivações que levaram milhões de brasileiros a saírem às ruas do País para protestar.   

 

É inegável, diante da magnitude do protesto, que os brasileiros que querem mudanças profundas na forma de governar e mais ética na política. Vestidos de verde e amarelo, animadas por carros de sons e pelos bonecos do Pixuleco (Lula), da mãe do petrolão (Dilma) e o do Juiz Sérgio Moro, as pessoas que foram ao ato coloriram as ruas do Brasil com as cores da bandeira nacional. Ficou evidente, a partir das palavras de ordem e nas mensagens de milhares de faixas e placas carregadas pelas pessoas, que os brasileiros já possuem um foco bastante nítido nas suas reivindicações: além do repúdio ao PT, querem ver Dilma fora do poder, seja pela renúncia ou impeachment, e a prisão do ex-presidente Lula. As imagens do evento mostram que alguns políticos de oposição que foram à manifestação, também foram rejeitados pelos manifestantes. Por sua vez, destaca-se como uma figura emblemática no ato, que recebeu apoio popular de forma unânime: o juiz federal de Curitiba, Sério Moro, pela sua postura firme na condução nas investigações, junto com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, da denominada de "Operação Mãos Limpas" brasileira (Operação Lava Jato).  

 

Essa megamobilização de brasileiros que foram para as ruas para protestar, sensibilizou a figura central desses esforços, que resultou na prisão de dezenas de corruptos e corruptores, integrantes de uma quadrilha de ex-dirigentes da Petrobrás, políticos, tesoureiros de partidos políticos, executivos e donos de grandes empreiteiras do País: o Juiz Federal Sérgio Moro, que divulgou uma nota bastante elucidativa do momento em que o Brasil vive. Na referida nota, Moro assinala que: "Neste dia 13, o povo brasileiro foi às ruas. Entre os diversos motivos, para protestar contra a corrupção que se entranhou em parte de nossas instituições e do mercado. Fiquei tocado pelo apoio às investigações da assim denominada Operação Lava Jato. Apesar das referências ao meu nome, tributo a bondade do povo brasileiro ao êxito até o momento de um trabalho institucional robusto que envolve a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e todas as instâncias do Poder Judiciário. Importante que as autoridades eleitas e os partidos ouçam a voz das ruas e igualmente se comprometam com o combate à corrupção, reforçando nossas instituições e cortando, sem exceção, na própria carne, pois atualmente trata-se de iniciativa quase que exclusiva das instâncias de controle. Não há futuro com a corrupção sistêmica que destrói nossa democracia, nosso bem-estar econômico e nossa dignidade como país".

O governo Dilma, mais uma vez, diante do número de pessoas nas ruas protestando, mostrou-se perplexo e acuado. Na noite de domingo, a presidente Dilma Rousseff, numa nota amorfa e sem consistência, na qual voltou a se recusar em admitir que o seu governo fracassou, disse que: "A liberdade de manifestação é própria das democracias e por todos deve ser respeitada. O caráter pacífico das manifestações ocorridas neste domingo demonstra a maturidade de um país que sabe conviver com opiniões divergentes e sabe garantir o respeito às suas leis e às instituições". Nesta segunda-feira, foi a vez do chefe da casa civil de se manifestar, após se reunir com a presidente Dilma e a coordenação política do governo. Na sua entrevista, também tentou justificar o injustificável, atribuindo os protestos do domingo (13/03) à crise econômica que o País está enfrentando, e aproveitou para criticar o que chamou de "agenda única" da oposição do impeachment. Ao avaliar o impacto das manifestações no processo de impeachment que Dilma enfrenta no parlamento, Wagner disse que o governo avalia que "há, sim, uma rejeição, e que o povo está cansado e abusado da classe política. Não tem ninguém fazendo oposição ou sendo propositivo. Assim como o empresário que está cansado de tanta indefinição". 

Nesse contexto, merece destaque, também, a entrevista dada pelo advogado Hélio Bicudo à revista Época (13/03), na qual fez uma avaliação da manifestação: "Estou vendo hoje algo que nunca vi. É uma mobilização espontânea e apartidária do povo. O Brasil precisa de uma mudança radical e os parlamentares que estão no poder precisam atender a esse chamado. À medida que os parlamentares entregarem o poder de elencar o que precisa ser tratado, o que é prioridade, vão se abrir saídas. Não quero para o Brasil uma democracia de fachada como é hoje". Em relação a essa questão afirmou: "Os partidos de hoje não representam em nada a população, apenas seus próprios dirigentes. Democracia é liberdade e participação. Onde estão os pobres? Onde estão os trabalhadores? A gente tem hoje um governo de elites e precisa de um governo para o povo, que nunca tivemos". 

 

Observa-se, nesse ambiente de inquietação, que as pessoas estão sinalizando para as lideranças políticas, e de forma específica para os membros do Congresso Nacional, que a demora do sistema político de encontrar uma solução para a crise política e econômica já ultrapassou todos os limites razoáveis, o que está contribuindo para o aumento dos níveis de intolerância e indignação com os políticos. Essa demora do parlamento se agravou com a divulgação das revelações feitas pelo ex-líder do governo no Senado Delcídio Amaral (PT-MS), em delação premiada, apontando Dilma e Lula como beneficiários dos desmandos e da corrupção instalada na Petrobrás. A reação despropositada do ex-presidente Lula, logo depois de sua condução coercitiva para prestar depoimento à Polícia Federal, como se ele não pudesse ser investigado, por estar acima da Constituição e das leis, também contribuiu para aumentar o descontentamento popular. A retórica dos discursos feitos por Lula, no mesmo dia da sua condução coercitiva, evidenciam que ele voltou a reeditar a desgastada estratégia de líderes populistas, que diante de dificuldades políticas, quando recomendam enfrentamentos sociais por meio de lutas de classes (nós contra eles). Ao conclamar os militantes do partido para reagirem, afirmou que a "a jararaca estava viva", expressão que produziu um efeito contrário, de repúdio, pela maioria da população.  

É importante destacar, por fim, que o Brasil assistiu no último domingo um inesquecível exercício de cidadania e democracia, onde milhões de brasileiros foram às ruas para protestar, em defesa do Brasil e contra maus governantes e políticos que se encontram incrustados no poder. Além de repudiarem com veemência os partidos políticos e suas lideranças políticas, mostraram o seu elevado descontentamento com o atual sistema político, que já se revelou incapaz de expelir, com a celeridade necessária e sem traumas, governantes incompetentes e corruptos do poder, além de privilegiar o populismo, a demagogia, o corporativismo e o patrimonialismo. Também deixaram um recado muito claro: o tempo de Dilma, Lula e do PT no poder já se esgotou. É sabido, em que pese a fragilidade do governo Dilma, que novas pressões populares ainda serão necessárias, até que se materialize a vontade do povo por mudanças efetivas. Pode-se afirmar, por fim, diante da magnitude política do evento, que a história vai registrar a data 13/03/2016 como o dia em que os brasileiros foram para as ruas para dizer: "basta" à incompetência, aos desmandos e a corrupção dos governantes e políticos brasileiros.   

 

* José Matias-Pereira é economista e advogado. Doutor em ciência política (área de governo e administração pública) pela Universidade Complutense de Madri, Espanha, e Pós-doutor em administração pela Universidade de São Paulo. Professor de administração pública e pesquisador associado do programa de pós-graduação em contabilidade da Universidade de Brasília. Autor, entre outras obras, do Curso de economia política (2015), publicado pela Atlas. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.