A memória da censura como defesa da liberdade

Personalidades procuraram no acervo do jornal notícias relacionadas à sua própria experiência durante ditadura militar e se emocionaram

O Estado de S.Paulo

25 Maio 2012 | 03h07

Com a defesa da liberdade de imprensa estampada na capa de sua primeira edição, em 4 de janeiro de 1875, quando já demarcava a independência do jornal em relação ao governo, em pelo menos dois momentos da história brasileira o Estado foi vítima do autoritarismo em sua trajetória de 137 anos. No período da ditadura Vargas, o jornal ficou por cinco anos, de 1940 a 1945, sob intervenção. Mais tarde, entre 1972 e 1975, foi obrigado a conviver com censores da ditadura militar dentro da redação. Todo o material dos períodos de exceção pode agora ser visitado no acervo digitalizado.

No Auditório Ibirapuera, na noite de quarta-feira, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, foi direto aos terminais de acesso pesquisar sobre o seu nome no acervo. Encontrou referência em reportagem de 1975, quando foi preso durante manifestação de protesto contra o assassinato do jornalista Wladimir Herzog. Bernardo se divertiu. "Minha primeira matéria no Estado", brincou.

O ex-governador José Serra também quis descobrir sua presença no acervo: pesquisou "União Estadual dos Estudantes de São Paulo janeiro de 1963", depois acrescentou "José Serra". Recebeu como resposta da pesquisa mais de 800 referências. Serra explicou que seu interesse "tem a ver com a história do nosso País e com São Paulo". "Estão aqui diversas fases: a Revolução de 32, a redemocratização após a 2.ª Guerra e também o golpe militar de 64", afirmou.

A ministra-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Helena Chagas, disse que viveu a censura em casa. O pai dela, Carlos Chagas, foi diretor de Redação da Sucursal do Estado em Brasília justamente na época em que censores designados pela Polícia Federal ocuparam a redação do jornal, na década de 1970.

"A coluna do meu pai era frequentemente censurada e ele era obrigado a depor no Dops", contou Helena, que compareceu ao Auditório Ibirapuera representando a presidente Dilma Rousseff. Helena lembrou que Chagas chegou a ser indiciado em processo porque o Estado publicou uma matéria, que escapou à censura, sobre a invasão da Universidade de Brasília (UnB). "Foi uma época difícil e todos nós, da família, ficamos muito preocupados. Eu me lembro que o Estado às vezes publicava Os Lusíadas, outras vezes receita de bolo e eu, que na época era criança, não entendia aquilo", disse.

Para o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, além do serviço prestado a estudantes e pesquisadores, a iniciativa tem forte relevância política. "É uma contribuição para a democracia brasileira. Para que não se esqueça no futuro das ameaças à liberdade de imprensa", disse, referindo-se aos conteúdos preservados e digitalizados dos períodos de censura e autoritarismo vividos pelo jornal.

Conspiração. No site, os períodos de autoritarismo podem ser encontrados em seções separadas do conjunto das reportagens. Como mostram textos que orientam o acesso apontando o caminho ao pesquisador, na primeira investida do poder contra o jornal, em 1940, tropas militares invadiram a redação do jornal sob a falsa acusação de uma conspiração armada. Armas foram colocadas no forro do prédio pela própria polícia para forjar provas. O jornal foi acusado de armazenar metralhadoras para derrubar o governo.

Francisco Mesquita foi preso e levado para o Rio onde ficou por 40 dias. Nada provado contra ele, é solto. Entretanto, ficou impedido de reassumir suas funções no jornal, que passou a ser gerido pela ditadura. Getúlio Vargas percebeu que melhor que fechar o jornal era confiscá-lo e o colocar a serviço de sua propaganda. O nome indicado pelo regime para comandar o jornal durante a intervenção foi do jornalista Abner Mourão.

O jornal só foi devolvido à família Mesquita em dezembro de 1945. A contagem das edições voltou ao último jornal de 1940, com o nome de Francisco Mesquita na capa. Esse período não entra na história do jornal.

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