A metrópole improvisada

Só os comunistas e os ditadores conseguem planejar cidades: na democracia não se pode proibir migrações, diz professor de urbanismo

Lúcia Guimarães,

18 de dezembro de 2010 | 11h26

 

Witold Rybczynski ocupa lugar especial entre os críticos de arquitetura na América do Norte. O professor de urbanismo da Universidade da Pensilvânia é um cronista prolífico da vida urbana. Filho de poloneses, nascido na Escócia e educado no Canadá, ele acaba de lançar seu 17º livro, Makeshift Metropolis, Ideas About Cities (Metrópole Improvisada: Ideias Sobre Cidades, Simon & Schuster), cujo título confirma a falta de pompa do autor, numa profissão conhecida por arranha-céu de egos. A cidade americana, lembra ele, é uma arena anárquica de iniciativa empresarial - é a metrópole improvisada.

 

Neste período pós-2008, ano do crash da bolsa e da alta violenta do petróleo, Rybczynski pergunta qual o tipo de cidade que queremos. E qual a cidade que precisamos ter. A resposta não é simples porque os americanos, o público alvo de Makeshift Metropolis, têm expectativas muito diferentes.

 

Mas o idílio da vida no campo para uma classe emergente, por exemplo, ficou para trás. Rybczynki aposta no crescimento das cidades de médio porte. Ele denuncia a reação dos políticos às pressões pela sustentabilidade ambiental, políticos que propõem acessórios, em vez de mudança de comportamento. "Recomendam que o povo compre um painel de energia solar ou forre o assoalho com bambu, mas uma casa de subúrbio não é "verde", ainda que o proprietário chegue ao trabalho num carro híbrido."

 

Aliás, o arquiteto recorda que o transporte - público e particular - continua definindo a evolução das cidades. E um dos grandes desafios à sobrevivência da cidade americana seria a combinação perversa de desemprego, impostos altos e erosão dos serviços públicos, como educação e saúde.

 

Rybczynski é um admirador da crítica social Jane Jacobs, morta em 2006, autora do clássico The Death and Life of Great American Cities, de 1961. Ele considera importante enfrentar os problemas urbanos com respeito pelo passado de cada lugar. "Livrar-se da história não traz liberdade alguma." Também desmistifica as soluções grandiosas e impostas por planejadores, que considera antidemocráticas. Reconhece, contudo, que países como o Brasil, com sua pressão migratória sobre grandes metrópoles, não têm as opções dos Estados Unidos, onde há um número maior de cidades economicamente independentes.

 

Se no Brasil dependemos tanto de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, como melhorar sua qualidade de vida?

 

O planejamento depende do anseios dos habitantes. Só os comunistas e os ditadores conseguem planejar cidades. Na democracia não se pode proibir migrações. Na década de 70 havia um clamor para deter o crescimento desenfreado da Cidade do México. Não adiantou. Os mexicanos continuaram se mudando para lá porque precisavam de emprego.

 

São Paulo, apesar do tamanho, pode ser paralisada pelo menor incidente ou inundada por poucas horas de chuva. Vê nisso uma contradição da vida  na grande cidade?

 

Não. A densidade provoca esse aspecto vulnerável na metrópole. Usamos a palavra cidade de maneira muito ampla, mas o papel dela mudou. A certa altura era símbolo da concentração de poder, riqueza e sofisticação. Hoje, uma de suas característica nos países em desenvolvimento é que atrai pessoas em busca de emprego. Por isso cresce rápido, mas cresce fora de controle. É o caso de grandes cidades africanas que têm pouca tecnologia, porém muita gente. Parecem enormes vilarejos. O mundo pode ter se tornado uma civilização urbana. No entanto, o papel da cidade vai mudando, mesmo se chamamos tudo dessa forma.

 

O que o senhor acha do aproveitamento do centro de grandes cidades como área residencial? Em São Paulo, por exemplo, enquanto a população de renda mais baixa é empurrada para a periferia, há uma enorme quantidades de imóveis vazios e abandonados no centro da capital.

 

A questão é o valor imobiliário. Num mercado aberto, o preço do terreno determina a mudança de moradores para um local. Na Europa os centros são geralmente muito caros e os subúrbios, mais baratos, um pouco como ocorre no Brasil. Nos EUA é o contrário: o subúrbio pode ser abastado. Houve um renascimento do morar em cidades como Boston e Nova York.

 

O senhor conhece Brasília? A capital foi revisitada por admiradores e críticos, no cinquentenário.

 

Não visitei Brasília, de modo que não posso emitir uma opinião de segunda mão. Mas uma coisa é certa: 50 anos é muito tempo para se cobrar pureza. Seja qual for a ideia original, a população teve que se adaptar. Mesmo que tenha sido uma ideia ousada e incomum, a capital deve ser vista pela evolução que sofreu sob o impacto do crescimento populacional.

 

Em ‘Makeshif Metropolis’, o senhor analisa a influência de planejadores urbanos sobre Nova York.

 

Sou um cético quanto ao planejamento, especialmente nos EUA. A primeira metade do século foi farta em projetos planejados, com graus de sucesso variável. Mas apoio a teoria da Jane Jacobs: ideias urbanas grandiosas podem criar mais problemas que soluções. Ela nos ensinou que não se deve reinventar a cidade. Até os bairros considerados velhos podem e devem funcionar bem, especialmente a rua, que é a vida da cidade. As cidades não são locais em que vigora a ordem. Elas se definem pela desarrumação. Às vezes um plano dá certo, como o Forrest Hill Gardens, o oásis de casas no bairro de Queens, do começo do século 20. Mas é bom lembrar que eram tempos mais autoritários. Hoje, seria impossível aparecer uma figura como Frederick Law Omstead, idealizador do Central Park (Rybczynski é autor da biografia de Olmstead ‘A Clearing in the Distance: Frederick Law Olmsted and America in the 19th Century’). O Central Park é produto da imaginação de Olmstead com a cumplicidade de um punhado de políticos locais. Nunca vamos voltar a uma situação semelhante em Nova York.

 

E megaprojetos como o controvertido Atlantic Yards, no Brooklyn, que vai misturar um centro comercial, arranha-céus residenciais e um ginásio de basquete para sediar os New Jersey Nets?

 

O Atlantic Yards confirma o importante papel assumido pelos empresários imobiliários. Partiu de uma empresa. E toda a disputa judicial, a movimentação de moradores contra a construção, nos mostra como esses projetos avançam sob o escrutínio público. Os empresários tiveram que ouvir os moradores do Brooklyn, não têm mais liberdade total para construir o que quiserem. Outro aspecto que me interessa nesse caso é que o Atlantic Yards foi produto de um período de boom de construções de condomínios. Era a ideia de ter designs extravagantes e um só arquiteto, no caso Frank Gehry, impondo sua visão. (Frank Gehry foi afastado do projeto em 2009.) Eu respeito o Gehry, mas acho péssimo para uma cidade quando um só arquiteto ocupa tanto espaço. Acho que o projeto do Brooklyn representa o fim de um período.

 

De maneira geral, o senhor é contra megaprojetos dentro de cidades?

 

Sim. Há um momento, no nascimento de certas cidades, em que cabe um projeto amplo, um conjunto de construções. Mas acho que a cidade contemporânea deve ser encarada em partes, com respeito às personalidades diferentes dos bairros. Estamos testemunhando o fim do excesso, dos projetos babilônicos, com arquitetos estrelas viajando o mundo e construindo prédios espetaculares, retorcidos. Teremos um pouco mais de modéstia. Não defendo indiscriminadamente o "small is beautiful" - nem sempre o pequeno é belo. Mas acho que precisamos resistir à tentação do planejamento em grande escala, que chamo de efeito Bilbao, quando uma cidade fica pendurada num projeto.

 

Por que o senhor diz que a fuga das indústrias manufatureiras é um desafio para as cidades americanas?

 

As grandes cidades já não fabricam nada. Sua economia vive muito de turismo e entretenimento. Até Nova York, um centro financeiro, é bastante dependente do turismo. E esse ramo não é nada simples, é mais fácil fazer sapatos. O turismo é uma indústria complexa, que implica uma variedade de serviços. Os visitantes vêm de lugares diferentes, são volúveis, a cidade precisa atender a seus caprichos. E ainda tem que enfrentar enorme competição de outras cidades em busca desse mesmo público.

 

O senhor conta no livro que, quando passou a dar aula no departamento de Real State da Wharton Business School, percebeu outra forma de encarar os problemas urbanos.

 

O que observei no departamento de Real State é que tanto os economistas quanto os arquitetos estudam a cidade na escola de planejamento urbano. A diferença é que os primeiros se debruçam sobre os fatos do cotidiano. Eles têm modelos econômicos para entender como vivem milhões de pessoas, entendem por que as pessoas migram, pesquisam os sucessos e fracassos urbanos. Os arquitetos e urbanistas pensam como a cidade deve ser, não como é. Não analisam os problemas existentes. Jane Jacobs dizia que as cidades são laboratórios. É preciso se debruçar sobre elas para conseguir soluções. De certa forma, ela pensava como economista.

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