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A morte sem metáforas

Popularizados na imprensa americana, relatos pessoais sobre doenças terminais e velhice mostram a crua realidade do fim da vida

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

01 Março 2014 | 16h00

Li recentemente na coluna Private Lives, do New York Times, que costuma tratar dos dramas e dificuldades das pessoas comuns, um texto a respeito da morte de um cônjuge. Era impossível definir com precisão a idade da autora, embora referências a filhos crescidos implicassem que ela estaria entre o final da meia-idade e a idade avançada. Depois de descrever uma depressão insuportável, e tendo se retirado para um "bunker de luto", ela concluía o ensaio com as seguintes palavras: "Falando em perdas, não perdi apenas meu marido e minha vida, mas também o cabelo. Tanto meu majestoso penteado quanto minhas sobrancelhas - acredite se puder - caíram aos tufos alguns meses após a morte de meu marido ... Recentemente, fui abordada por um policial por estar parada no meio da rua. O tráfego estava sendo desviado, mas eu tinha congelado no lugar e uma longa fila tinha se formado atrás de mim. Estendi as mãos, esperando ser algemada, dizendo não haver mais nada que ele pudesse fazer comigo que fosse pior que aquilo que eu já estava enfrentando. Ele disse, ‘O que houve, senhora?’ Respondi: ‘Não tenho marido, nem amigos, nem cabelo’".

Na verdade, seria equívoco chamar aquele tipo de texto de "ensaio". Era um grito de dor sem solução nem filtro, que punha o leitor num horripilante transe, com pena da autora, constrangido por estar lendo o texto, grudado às palavras até o amargo fim.

Há dez, ou mesmo cinco anos, jamais encontraríamos algo do tipo numa revista ou jornal, muito menos no New York Times. Hoje, isso faz parte de um tipo de texto cuja popularidade aumenta rapidamente, envolvendo temas como doença, final da vida e morte. Relatos do tipo estão por toda parte.

Nós os encontramos em incontáveis artigos do Times, desde homens na faixa dos 50 escrevendo sobre seus derrames até doutores que descrevem seu estado físico enquanto documentam o final da própria vida. É claro que isso não se limita às páginas do Times. Está também no Wall Street Journal, onde uma mulher de meia-idade ofereceu um relato da morte da mãe, ou na New York Magazine, onde um escritor profissional publicou um longuíssimo relato da morte da mãe dele. Numa edição recente da New Yorker, o famoso autor Roger Angell descreveu como é a vida aos 93 anos, enfrentando a perda e a desintegração física - ter de lidar com aquilo que ele descreveu com a imortal expressão "mundo insistentemente decadente e grosseiro".

Alguns desses depoimentos são de uma beleza arrebatadora, como o de Angell, que alcança profundezas shakespearianas, e outros, como o relato que citei no começo, são grandes pedaços de vida e sofrimento, sem refinamento e inconscientes de si enquanto textos. Mas são todos comoventes e, ouso dizer, sem precedentes na cultura. Nunca antes foi tão grande o número de pessoas a chegar aos 90anos, ou até mais. Pela primeira vez, temos relatos em primeira mão do verdadeiro significado de envelhecer.

E viver até uma idade cada vez mais avançada significa que a morte não é mais algo a que nos resignamos e diante do que nos calamos. Henry James, que chegou aos 72 anos, e Tolstoi, que chegou aos 80, nunca pensaram em escrever a respeito da velhice porque a morte estava por toda parte ao redor deles. Agora, com os avanços da tecnologia médica, somos cada vez mais capazes de adiar a morte. Portanto, o luto dos sobreviventes não é apenas um grito de dor. É também, num certo sentido, uma maneira de protestar contra a injustiça.

Há uma dimensão ética controvertida nesse novo gênero de texto - e não se trata apenas da escrita; há também programas de reality TV a respeito de pessoas moribundas - conforme a reticente cultura da privacidade, mais antiga, colide com nossa nova era digital de transparência e expressão da intimidade. Não faz muito tempo, Bill Keller, ex-editor do New York Times e hoje colunista do jornal - um homem de dignidade e inteligência extraordinárias - expressou sua reprovação a uma mulher chamada Lisa Bonchek Adams, que publicou no Twitter e em seu blog textos a respeito de sua luta contra o câncer, sem poupar detalhes, durante os últimos sete anos. A opinião de Keller diante da exposição dela foi refletida na citação de um médico com a qual ele encerrava seu artigo: "Mérito idêntico", dizia o médico, depois de admirar o depoimento de Lisa, "cabe àqueles que aceitam um destino inevitável com graça e coragem". Embora muitos leitores tenham concordado silenciosamente com Keller, a resposta negativa foi de furiosa indignação. Tanto para os admiradores da atitude de Lisa quanto para aqueles que a repudiam, não se pode negar que ela seja uma espécie de Fernão de Magalhães no fim da vida. Ela está mapeando o território inexplorado ao qual todos chegaremos, mais cedo ou mais tarde.

Assim como ocorre no final de Édipo Rei, de Sófocles, quando Édipo percebe que aceitar o enigma de ser humano é a única resposta para a charada de ser humano, a cultura americana está sendo reduzida aos elementos básicos da vida - ou refinada por eles. Há aqui uma tendência recente envolvendo algo chamado "jantar de morte", no qual, à maneira talvez dos antigos filósofos romanos como os estoicos e os epicuristas, as pessoas se reúnem para falar das questões suscitadas pelo morrer, como os testamentos em vida e a decisão de ter o suporte de vida desligado. Mas, se os romanos antigos aceitavam a morte, os americanos contemporâneos vão continuar a combatê-la como se fosse uma nova forma de injustiça social. Os americanos encaram a vida como uma série de problemas a serem resolvidos, afinal, e os rápidos avanços na ciência e na medicina fazem a morte parecer menos uma condição permanente e mais um obstáculo particularmente difícil no caminho. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

* LEE SIEGEL É ESCRITOR E CRÍTICO CULTURAL AMERICANO. ESCREVE PARA O JORNAL THE NEW YORK TIMES E AS REVISTAS HARPERS, THE NEW YORKER E THE NATION (COMPANHIA DAS LETRAS)

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