A mulher, a ciência e o coco

Sim, cativante leitora, gentil leitor, fiquei devendo algumas explicações, depois da deplorável barafunda de assuntos com que os tenho vitimado, nos últimos domingos. Mas, apesar de tudo, creio que acabei esclarecendo mais ou menos a questão da gordura do coco e discorrendo um pouco sobre a inconstância do que nos apresentam como perenes e irretorquíveis verdades científicas. Não cheguei, contudo, a dizer direito o que via nisso de relevante para as mulheres. Hoje essa grave lacuna, como é destino de todas as lacunas, será preenchida.

João Ubaldo Ribeiro,

20 Maio 2012 | 06h36

No domingo passado, escrevi que havia novidades científicas para as mulheres, relacionadas com o coco. Disse também que não sabia se era caso de as mulheres desconfiarem de mais esse achado científico. De minha parte, creio que sim - e não somente porque os achados vivem se contradizendo, mas porque minhas contemporâneas sofreram bastante, por causa da verdade científica. A maioria das queridas leitoras, todas na flor da idade, talvez não possa recordar o tempo em que a gente se referia às mulheres, a sério, como "o sexo frágil" ou "o belo sexo" e as considerava umas instintivas mais ou menos destituídas de real inteligência. Claro que essa maneira de ver se originava na ciência vigente. Sem achar que estavam ofendendo ninguém, os homens e muitas mulheres repetiam uma porção de besteiras sobre as mulheres, nenhuma delas abertamente desmentidas pela ciência e algumas até confirmadas.

As besteiras se estendiam sobre todas as áreas, inclusive aquela em que o óleo de coco está ganhando destaque, ou seja a tensão pré-menstrual. Pois é, a cada dia aparece uma matéria em algum jornal ou noticiário, anunciando essa maravilha. Desconheço a posologia e não estou receitando nada, mas li que, num porcentual altíssimo, as mulheres que sofrem de TPM ficam curadas ingerindo óleo de coco diariamente, do qual já existem não sei quantas marcas em circulação. Espero que as sofredoras fiquem boas mesmo, mas, como disse domingo passado, tenho algumas lembranças do progresso da ciência e do conhecimento comum sobre a questão, que talvez devam ser ponderadas.

No começo, não havia menstruação. Ou seja, não se falava nisso na presença de homem algum, a não ser o médico, a cujos consultórios as mulheres só iam acompanhadas. Geralmente eram os homens que tinham irmãs que começavam a revelar aos outros a existência desse estranho fenômeno, encarado por muitos com ceticismo. Os mais sofisticados pegavam anúncios de Modess na revista O Cruzeiro, em que apareciam misteriosas mensagens cifradas, dirigidas às mulheres e mencionando "as antiquadas toalhinhas". Mas não se mostrava nem a toalhinha, nem o secretíssimo produto anunciado. Havia grandes discussões masculinas sobre o que seriam as antiquadas toalhinhas e até hoje não faço delas uma ideia clara. Neném, um amigo de infância, certa vez abriu um pacote de Modess para ver como era e o descreveu como "um travesseiro de gato", o que não contribuiu muito para o entendimento. E a moça não ficava menstruada, ficava "incomodada", ou até "doente".

O conhecimento comum e o conhecimento científico sobre o assunto, tanto quanto eu saiba, diferiam apenas na terminologia. Em Itaparica, não se usava a expressão na presença de alguém do sexo oposto, mas a menstruação era designada como "boi", em falas como "acho que o boi dela chegou, você precisa ver como o feijão está salgado e mal catado", "ele disse que vai casar com ela e eu retruquei que não tinha nada contra, só fiz lembrar que a família dela tem os bois mais brabos da ilha e ele que se precate, porque vai tomar porrada todo mês". Quando eu era menino e ficava na quitanda de Bambano para ouvir as conversas dos adultos, a finada Lindaura, de finado Cartésio (nomes mudados por uma questão de discrição), às vezes passava batendo os tamancos e assoprando forte e Bambano comentava que "compadre Cartésio hoje vai se ver, espere só ela abrir a cancela e soltar esse boi". E de fato, quando sentia que o boi de Lindaura estava perto, Cartésio sempre arranjava uma viagenzinha de negócios a Salinas e ficava por lá até ele acalmar.

Era mais ou menos o que a ciência dizia, com outras palavras. Questão de personalidade da vítima de bois brabos, histeria. Quando a infeliz se queixava de cólicas que a deixavam rolando na cama, o médico, como eu vi acontecer, só faltava dar uma risadinha de condescendência para com o eterno feminino (sim, havia também o eterno feminino) e explicava que as cólicas eram psicológicas. "Está tudo em sua cabecinha", dizia o médico a uma paciente que evidentemente não tinha dor nenhuma na cabeça, mas na barriga mesmo.

Agora, ao que parece, as cólicas não são mais psicológicas e a ciência reconhece a existência da TPM. Segundo me contam, entidades científicas questionam essa existência, mas outras não só a aceitam, como ainda acharam algo pior, chamado Transtorno Disfórico Pré-Menstrual. Pela descrição, a mulher nas vascas do TDPM é capaz de metralhar a vizinhança ou jogar o gato no liquidificador. Óleo de coco nela, atual palavra de ordem. Como eu disse antes, espero que dê certo mesmo e, a julgar pelo material que me mandaram depois que falei nele, deveremos entrar em breve na Era do Coco. Aliás, lá na ilha já entramos, com resultados ainda duvidosos, o que dá pra rir dá pra chorar e até cheiro bom tem sua hora. Um toureiro (marido ou amancebado com mulher de boi brabo) lá do Bar de Espanha se ofereceu para um teste e, de fato, o boi da sua dele santa esposa amansou muito, depois que ela passou a tomar leite de coco várias vezes por dia.

- Mas eu suspendi o tratamento - disse ele. - Muito antes um boi brabo do que o sujeito ir deitar e achar que está dormindo com uma moqueca.

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