A nobreza alentejana do Rio

Restaurante Antiquarius, fundado por Carlos Perico, é referência de cozinha portuguesa

Márcia Vieira, O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2008 | 03h43

O grande responsável foi Carlos Lacerda. De tanto o ex-governador do Rio de Janeiro insistir, Carlos Perico, então dono de uma badalada pousada no Alentejo, em Portugal, fez as malas e veio com a mulher e os três filhos tentar a sorte no Rio. O empurrãozinho foi dado também pela Revolução dos Cravos, de 1974, que sacudiu o país depois de quatro décadas de ditadura salazarista. Não que Perico fosse contra o movimento. Mas aproveitou a mudança no país para tentar ares novos. Ao lado do amigo Antonio Pimenta, Perico abriu o Antiquarius, um legítimo restaurante português com o que há de melhor e mais tradicional na culinária da terra de d. João VI. E lá se vão mais de 30 anos. Hoje, além do primeiro Antiquarius, na quadra da praia no Leblon, Perico mantém uma filial na Barra da Tijuca e outra em São Paulo. A casa paulistana é comandada pela filha mais velha, Maria Eduarda. Perico, aos 72 anos, é fiel à tradição. O Antiquarius não segue modismos. As receitas portuguesas continuam a ser servidas em porções fartas e fazem a fama da casa que atrai celebridades. Vai ser assim com a bochecha de javali à d. Pedro que Perico incluiu no cardápio em homenagem aos 200 anos da chegada da família real ao Brasil. Os cortes da bochecha são servidos com feijão tropeiro e couve feita à moda do Antiquarius. Um prato cheio de história. "Diz a lenda que d. Pedro, farto de comer peixes no Rio, foi caçar nas terras de Minas Gerais. Lá matou um porco selvagem e ordenou ao cozinheiro real que lhe cozinhasse as bochechas", conta Perico, num carregado sotaque alentejano. Mas por que as bochechas? "Elas são a parte mais próxima do osso. São as coisas mais gostosas do mundo", explica. "Aqui no Antiquarius a couve mineira tem um toque agridoce. A gente dá uma fritada que a deixa crocante. É feita à moda de Macau", ri. O prato vai custar R$ 71. Perico não fica na cozinha. Mantém uma afiada equipe de cozinheiros que segue suas ordens. O amor pela culinária nasceu quando, ainda adolescente, começou a trabalhar com antiguidades. Cada ida a um convento ou mesmo a uma barbearia para ver uma peça acabava invariavelmente numa troca de receitas da rica culinária portuguesa. "Quem gosta de coisas da arte, gosta de boa comida. Fazíamos longos almoços. Hoje em dia ninguém tem tempo para nada", reclama. Perico nasceu e foi criado em Elvas, no Alentejo, região considerada a mais conservadora de Portugal. Um lugar onde o tempo passa lentamente. Uma terra famosa também pela gastronomia. É no Alentejo, mais precisamente em Évora, que está o Fialho, considerado um dos melhores restaurantes da tradicional gastronomia portuguesa. Vez ou outra, Perico troca receitas com os filhos de Manuel Fialho, fundador do restaurante na década de 40. A chegada de Perico e suas receitas ao Brasil ajudou a mudar o paladar do carioca. Aos poucos foi impondo no cardápio o cordeiro, o cabrito, a perdiz. Hoje, os pratos de caça saem quase tanto quanto os estupendos pratos de bacalhau. "O paulista, ao contrário, prefere o bacalhau", diz. Perico também teve que fazer mudanças para agradar o freguês. Foi assim com o hoje famoso arroz de pato. No início, ele servia igualzinho ao prato que fazia tanto sucesso em Portugal. Uma versão seca, sem molho. Foi um fiasco. "De cada dez fregueses que pediam o prato, sete odiavam", conta Perico. Resolveu fazer uma adaptação. O pato agora é marinado em vinho e depois assado, enquanto o arroz é feito nesse molho. Ao fim, o prato recebe as azeitonas e o paio português. Virou um dos mais pedidos e, glória maior, agora é servido à moda do Antiquarius em restaurantes de Portugal. Mas Perico persegue a simplicidade. "Valorizamos a cebola, o azeite. Quanto mais simples, melhor", ensina.

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