A nova e vibrante Londres cervejeira

Estava eu no meio da primeira pint de Nightwatchman - uma ale maltada da East London Brewing Company. O bar era um clássico pub britânico: balcão de madeira baixo, umas dez torneiras de cerveja com marcas desconhecidas para mim e outras oito torneiras de cidras das quais nunca ouvira falar. Em volta, meus vizinhos de bar liam jornal ou conversavam baixo, de um jeito que, imagino, os londrinos fazem há séculos. Engatei uma conversa fácil com o cavalheiro mais próximo.

EVAN RAIL , THE NEW YORK TIMES, / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2012 | 03h09

Mais difícil foi assimilar o que ele me disse. Aquele belo pub, o Southampton Arms, em Gospel Oak, norte de Londres, não era parte da velha tradição barística londrina que se perde no início dos tempos. Na verdade, a agradável atmosfera rarefeita e a lista de cervejas que eu tanto estava apreciando datavam de... 2009. Eram produto da explosão de grandes cervejas (e grandes lugares para bebê-las) que vem ocorrendo na capital britânica nos últimos anos.

"Acho que é a melhor época de cerveja em Londres desde o início dos anos 1970", avaliou Des de Moor, autor de The Camra Guide to London's Beste Beer, Pubs & Bars, enquanto bebericávamos uma tranquila pint no dia seguinte.

É verdade. Londres tem experimentado um revival cervejeiro tão marcante que connoisseurs como De Moor têm de trabalhar em tempo integral para manter atualizados seus sites na web. Boas notícias para uma cidade que, apesar de sua história como berço de muitos dos mais queridos estilos cervejeiros - IPA, porter, stout, brown ale e russian imperial stout - , atravessava várias décadas de declínio. A ponto de, em 2006, apenas sete cervejarias estarem operando, segundo De Moor.

Hoje, esse número é pelo menos o triplo, com promissoras ales e lagers surgindo de cervejarias como a Camden Town Brewery, que começou em 2010, e a East London Brewing Company, de 2011. Para escoar essa produção, uma nova geração de bares e pubs se abre aos amantes da cerveja que buscam sabores locais e novos companheiros de copo.

Eu, curioso com as mudanças, pus no bolso um saudável punhado de libras e mergulhei na malha do transporte público, disposto a conhecer tanto quanto possível dessa nova cena cervejeira em um fim de semana.

"É demais, incrível", comemorava James Turner, gerente do Euston Tap, um bar com um ano e meio de vida montado numa histórica construção de pedra perto da Euston Station. O bar estava lotado com uma barulhenta multidão de jovens quando me sentei para uma meia pint saideira no fim de meu primeiro dia de desbravamento. "Esta chegou a ser a pior cidade cervejeira da Grã-Bretanha, mas veja agora", entusiasmava-se Turner.

Apesar das arraigadas tradições de Londres, o novo panorama cervejeiro da cidade pode ser surpreendentemente aberto. No Euston Tap, a Modus Hoperandi, da Ska Brewing, Colorado, e outras americanas importadas dividem 0 balcão com robustas marcas locais como a Big Chief IPA, da Redemption Brewing, norte de Londres, com seu intenso perfil de frutas tropicais que chocaria fãs de sabores britânicos mais tradicionais.

No dia seguinte, debruçado sobre uma pungente Simcoe pale ale, contei algumas de minhas descobertas a De Moor. Estávamos no Kernel, um dos mais bares de mais sucesso da nova geração cervejeira. De Moor lembrou que mesmo antigas cervejarias da cidade, como a Fuller's, fundada em 1845 no subúrbio de Chiswick, estão se renovando com melhores produtos.

"Em vez de sentar nos louros eles fizeram coisas novas, como a Vintage Ales, envelhecida em carvalho, e a série Past Masters, que usa receitas históricas dos arquivos da Fuller's. Estão acompanhando os tempos."

E os tempos vêm mudando rapidamente. Novos bares e pubs, como o excelente Mason & Taylor, aberto em Bethnal Green em 2010, e o atmosférico Craft Beer Co., surgido em meados de 2011 em Clerkenwell, continuam pipocando. E outras novas cervejarias devem abrir logo. "Acho que já são 22, e até o fim do ano haverá mais 3 ou 4", calcula De Moor.

A maioria dos points da moda fica no centro de Londres, mas a onda renovatória chegou bem mais longe. Uma das novas cervejarias, a Brodie's, em Leyton, tem um pub anexo, o King William IV. Dentro, pesados espelhos anunciam "ales pale e Burton" da extinta cervejaria Truman, Hanbury, Buxton & Co., que sobreviveu por mais de três séculos até fechar, 25 anos atrás. Pedi uma pint de bitter clássica. A cerveja e o fish & chips que a acompanhavam estavam deliciosos.

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