A onça que inaugurou o Projeto Carnívoros

"Foi tudo perfeito", diz a bióloga Marina Xavier da Silva. "Tirando..."

Marcos Sá Corrêa, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2010 | 00h00

Quatro dias depois de fazer sua primeira captura de onça-pintada no Parque Nacional do Iguaçu, sua voz ainda não voltou ao tom tranquilo de sempre. Talvez porque o detalhe que ela teria preferido excluir com esse "tirando..." fosse o encontro inesperado com o bicho, "a uns dois metros e meio de distância".

Marina estava seguindo, na semana passada, o rastro de um bezerro arrastado por onça-pintada de um sítio que é vizinho ao parque. A trilha se enfiava, fora da cerca, numa capoeira baixa e entrelaçada. E ali, ao encontrar a presa, ela deu de cara com o predador. Diante do imprevisto, recordou na prática tudo o que aprendera na teoria, como coordenadora do Projeto Carnívoros.

Evitou que dois voluntários anexados à equipe fugissem correndo. Lembrou-se de falar alto. E teve de decidir depressa se era ou não o caso de disputar a carcaça com o novo dono, para usá-la como isca de uma armadilha. Era. Batendo a lâmina do facão numa pedra, venceu a parada.

Assim, no sábado, a fera amanheceu atrás das grades. Foi anestesiada com dardo de zarabatana. Submeteu-se, desacordada, a um exame em regra. Provou que estava vendendo saúde. Pesava 41 quilos. Tinha a barriga tão cheia de carne que ganhou na hora o nome de Pança.

Filhote. "É um dos gêmeos", resumiu o biólogo Apolônio Rodrigues, diretor de Conservação e Manejo do Iguaçu. Ou seja, um dos filhotes que há dois meses ele fotografou à luz do dia nos fundos de um alojamento. Desde então, os dois irmãos assombravam funcionários e visitantes do parque com aparições em locais bem implausíveis, como as escadas do centro administrativo. Ainda imaturos e já com maus hábitos, estavam no rumo certo do conflito com sitiantes que, por décadas, serviu de pretexto para levar as onças do Iguaçu à beira do extermínio definitivo.

Pança voltou ao mato. Foi devolvido no mesmo dia à trilha do Poço Preto, nem tão perto dos portões que estimule recaídas no assalto a animais domésticos nem tão longe do território original que o ponha, por acaso, em área já dominada por um macho adulto, capaz de escorraçá-lo. Leva um rádio-transmissor no pescoço. Terá seus passos examinados daqui para a frente por satélites e mapas georreferenciados.

Dez anos de teimosia. Pança tem ainda um longo caminho a percorrer, antes de prestar serviços à perpetuação da espécie no parque. Mas, com ele, amadureceu nesta semana o Projeto Carnívoros do Iguaçu, depois de uma gestação que se estendeu por mais de seis anos e custou a Marina uma década inteira de obsessiva teimosia.

Ela é paulistana. Cresceu na cidade, pensando em trabalhar no mato. Aos 11 anos, seguia o irmão mais velho em pesquisas de campo, no litoral de São Paulo. Cursando Biologia na USP, pegava à unha estágios em zoológicos, disposta ao "trabalho braçal" de botar a mão nos problemas de sobrevivência da fauna silvestre.

Aos 21 anos, estava morando no parque, mandada por uma ONG pobre, mas ambiciosa, que lhe enviava R$ 600, "mês sim, mês não". Aboletou-se sozinha no beliche de um dormitório coletivo, tão decrépito que acabou demolido. Às vezes, passavam por lá guardas-parques e pesquisadores. Marina grudava em seus calcanhares, querendo aprender o que a universidade não lhe ensinara.

Estudou sementes, répteis, insetos, tudo o que não achava nos anais do parque. A persistência lhe valeu um contrato de funcionária no setor de manejo. O passo seguinte foi pegar, em 2004, as rédeas do Projeto Carnívoros. "Eu não queria mexer com onça só por mexer com onça", ela explica. Está lá para "fazer conservação".

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