A paz na Colômbia

O acordo assinado em Havana entre o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o chefe das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Rodrigo Londoño, põe fim a um longo e doloroso conflito que durou mais de 50 anos. Embora a efetiva implementação do acertado demande algum tempo, o essencial está garantido e por isso é dado como certo que a paz foi selada.

O Estado de S.Paulo

26 Junho 2016 | 03h05

Isso explica a pompa da cerimônia realizada na capital cubana, que contou com a presença do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, vários chefes de Estado latino-americanos e enviados especiais do governo dos Estados Unidos e da União Europeia, ao lado do presidente cubano, Raúl Castro.

O documento estabelece cessar-fogo definitivo, cronograma para que os guerrilheiros deponham suas armas, garantias de segurança para os combatentes e a realização de um referendo sobre o acordo.

Em abril, as partes já haviam se entendido sobre uma das questões mais difíceis das negociações, iniciadas em 2012: a submissão dos combatentes a uma “justiça de transição” que, no dizer do presidente Santos na ocasião, “tem de ser menos rígida do que o normal”, o que não livrará “os máximos responsáveis por crimes contra a humanidade” de serem punidos.

“Chegou a hora de vivermos sem guerra, de vivermos em um país com paz, com esperança”, afirmou Santos, embora tivesse admitido antes, durante a fase final das negociações – já prevendo algumas reações contrárias –, que a realidade não permite “um acordo de paz perfeito”. Elas não tardaram: o ex-presidente Álvaro Uribe afirmou que na prática o acordo anistia os crimes cometidos pelas Farc e acusou Santos, que teve papel de destaque em seu governo como ministro da Defesa, de “traição”. Tanto ele como a maioria dos ex-reféns das Farc deverão votar contra o acordo no referendo, mas as pesquisas de opinião vêm indicando vitória de Santos.

Ainda que seja imperfeito, no acordo prevaleceram as posições do governo colombiano. Além disso, colaboram também para que a maioria da população, cansada por meio século de guerra civil, dê seu apoio ao fim do conflito pelas vantagens que ele acarretará: o aumento da segurança e a redução das verbas para o setor de defesa, que deverão ser orientadas para outras áreas, como a saúde e a educação.

As despesas com a defesa em geral – operações de guerra e polícia – chegaram a 3,4% do PIB. Ainda não existem cálculos precisos de quanto o Estado economizará com o fim do conflito, mas já se estima que ele possibilitará em breve um acréscimo de 2% no PIB.

Mais alguns números completam o quadro e dão uma ideia do enorme peso que a guerra civil representou para o país nos últimos 50 anos: mais de 220 mil mortos, 45 mil desaparecidos e 6,9 milhões de desalojados.

Um dos grandes desafios do governo agora será aplicar as regras estabelecidas pelo acordo de forma a integrar na vida civil e na atividade política legal os cerca de 7 mil guerrilheiros que deporão suas armas. Em abril, o senador Antonio Navarro Wolf, que é ex-guerrilheiro, chamou a atenção para os cuidados a serem tomados para que esses homens, experientes em combate, não sejam aliciados por grupos criminosos.

Outro aspecto da maior importância desse problema é a necessidade de aprender a lição política que ele deixa. A irresponsabilidade criminosa com que a esquerda revolucionária das Farc se aliou com o narcotráfico, no momento em que isso lhe pareceu necessário para sobreviver, não pode ser esquecida.

Os sobreviventes dessa guerrilha, em especial os líderes que tomaram aquela decisão, não têm o direito de posar de heróis. Não são bom exemplo para ninguém. Não há pureza de ideal revolucionário que se possa conciliar com um dos mais cruéis e infames tipos de bandidagem que existem.

A história não pode deixar de registrar, em toda sua crueza, essa página negra da esquerda latino-americana.

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