A Pinot Noir se sente em casa no terroir da Patagônia

O italiano Piero Incisa pôs na garrafa a imagem fotográfica da região

Saul Galvão e Luiz Horta,

19 de março de 2009 | 10h59

Um jantar com vinho pode mudar sua vida - como a de Piero Incisa, que virou ao contrário. A história parece um conto moral de Eric Rohmer. Com carreira bem-sucedida nas finanças, Piero foi fazer doutorado em Nova York. Jantando com a prima, numa noite de 2001, provou um vinho que ela levara. Ao desafio "que vinho é este?", respondeu rindo, parecia tão fácil: "Um Borgonha, não sei de qual comuna." Ela: "Da comuna da Patagônia." É preciso dizer que a prima é a condessa Noemi Cinzano, dona da Bodega Noemia e produtora de bons Malbecs cheios de personalidade; e o sobrenome de Piero, Incisa della Rochetta, está ligado ao vinho na Toscana há cinco séculos - a família criou o Sassicaia. Mas isso não tira o valor da novelinha. Piero viajou para Rio Negro e visitou o vinhedo, praticamente abandonado. Localizou o proprietário. "O señor Piri parecia Marlon Brando como o poderoso chefão, chapéu enorme, 84 anos", ri. "Ele me disse: ‘Não te vendo este vinhedo porque você vai falir, isso daí não rende nada...’" Com muita negociação conseguiu alugá-lo por um ano. A safra foi vinificada nas instalações da Noemia pelo enólogo Hans Vinding-Diers e saiu como Chacra Trinta y Dos 2004. Com tenacidade, comprou o vinhedo, de 1932, e outro, de 1955, criando a Bodega Chacra (que daria origem ao vinho Chacra Cincuenta y Cinco). "Meu interesse é a Pinot, com expressão de terroir, cada vinhedo está sobre um tipo de solo, argila, calcário e areia. O 1932 é pé-franco. Imagine, tudo sem filoxera", entusiasma-se. "Quero um vinho sul-americano, não francês, que seja a imagem fotográfica da região no meu palato." A bodega Chacra impressiona, além do romantismo aventureiro que a palavra Patagônia evoca. Há riachos de água límpida de degelo, um vento constante e enlouquecedor, salgueiros exuberantes e patos negros de bico amarelo nadando. Paisagem lisérgica na sua irrealidade. Piero passa lá quatro meses por ano, e quer mais. "Este é meu projeto de vida. Quando não estou na Patagônia, minha cabeça está. Viajo para escolher cada barrica em François Frères, escolho as rolhas, cuido dos detalhes. Não tenho pressa. As leveduras são nativas, que levem quanto tempo precisem para a fermentação. Sou biodinamista, só engarrafo em dias flor do calendário de Maria Thun. O vinho age como quer, no seu ritmo,eu participo ajudando."

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