A porta pega-gordo do Mosteiro de Alcobaça

Se a moda pegasse no Brasil, todos os jogadores de futebol que enfrentam ou já lutaram contra o excesso de peso - de Ronaldo, o Fenômeno, a Neto, do Corinthians; de Coutinho a Edu, do Santos; ou mesmo Claudiomiro, do Internacional - sentiriam o problema no bolso.

Dias Lopes, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2011 | 00h55

Alguns clubes da Alemanha e Inglaterra estão multando os atletas que, por excessos à mesa ou ao copo, alargam a silhueta. O Eintracht, de Frankfurt-am-Main, foi o primeiro. Seus jogadores pagam 100 (cerca de R$ 220) para cada 100g acima do peso permitido. Em Londres, o West Ham multou o atacante sul-africano McCarthy em 60 mil (algo em torno de R$ 135 mil) por exceder o limite fixado pelos preparadores físicos.

Na Itália e Espanha, os clubes entregaram uma cartilha com instruções alimentares aos atletas que foram para casa festejar as festas do final do ano. Mas o atacante Cassano, cotado para substituir Ronaldinho Gaúcho no Milan, engordou dois quilos entre o Natal e o réveillon e voltou à concentração culpando o panetone.

A dúvida é se castigar financeiramente os gulosos vai funcionar. Em princípio, todo comilão é um incorrigível. Pode ser que os jogadores bons de garfo julguem valer a pena ficar sem um tiquinho do salário milionário para ter prazer à mesa.

O empenho dos clubes europeus faz lembrar a luta das instituições religiosas medievais contra apetite descontrolado de padres e freiras. Primeiro, porque a gula é um dos sete pecados capitais. Depois, pelo fato de a obesidade torná-los, em princípio, menos disponíveis para os trabalhos braçais, além de revelarem maior predisposição às doenças.

A Ordem de Cister, fundada em 1098 nas imediações da cidade francesa de Dijon, na Borgonha, foi uma das mais preocupadas com a balança. Chegou a Portugal ainda no reinado de d. Afonso Henriques, primeiro rei do país, onde se difundiu extraordinariamente.

Seus monges adotaram a regra de São Bento e deviam viver "a se", ou, seja, livres de tutelas. Como agricultores e vinhateiros, produziam tudo que consumiam. Exploravam as terras dos mosteiros, sobretudo nas granjas (palavra derivada de grãos). Portanto, era importante que mantivessem a forma.

Os abades faziam de tudo para controlá-los à mesa. Mandavam comer sem pressa, mastigando, ouvindo no refeitório coletivo a leitura de um trecho da Bíblia. Regulavam o consumo de alimentos, punindo os desobedientes com uma dieta à base de pão e água. A carne e a gordura, até mesmo por motivos religiosos, que previam dias de jejuns e abstinências, foi vetada por muito tempo.

Abria-se exceção só no caso de doença. Em 1666, porém, o papa Alexandre VII autorizou seu consumo. A liberação alterou as cozinhas da Ordem de Cister, que precisaram aumentar a estrutura para assar bois inteiros, atravessados por grandes espetos.

A lenda diz que a melhor solução foi encontrada por um abade do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, no Centro de Portugal, construído no século 12, hoje transformado em museu. Ao visitá-lo, os turistas se surpreendem com o amplo refeitório e a enorme cozinha, cruzada por um braço desviado do Rio Alcoa.

No refeitório, os monges sentavam-se com os rostos virados para a parede e comiam em silêncio. O abade ficava de costas para a parede, observando os subalternos. Alguns metros à frente, havia uma porta de 2 metros de altura e 32 centímetros de largura. Serviria para controlar o peso dos monges. Uma vez por mês, eles deviam atravessá-la, o que era possível apenas se o fizessem de lado. Caso não conseguissem, o abade os submetia à dieta do pão e água.

Os estádios das 12 cidades brasileiras nas quais serão disputadas as partidas da Copa do Mundo de 2014 se encontram em fase de obras. Não faria sentido sugerir que o do Corinthians, em construção, disponha de uma porta fitness, igual à do Mosteiro de Alcobaça.

Não há dúvida, porém, que Ronaldo, o Fenômeno, teria problemas em atravessá-la mensalmente, apesar de o talentoso centroavante continuar perigoso em campo, gordo ou magro.

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